dezembro 14, 2009

Um latifúndio improdutivo da escrita cronicista ...

Olá a todos,

Estou me sentindo sob risco de ataque do MST. É que no último mês me tornei um latifúndio (no caso específica latifúndio de gordura e não de terras) improdutivo da escrita cronicista ... Acho que é reflexo de minha volta ao Brasil e de estar ocupado em matar as saudades da velha e boa terra onde aportaram os portugueses em 1500.

Como minha forma de matar as saudades tem se focado em uma atividade extremamente cheia de prazeres de fácil obtenção (Estou mandando ver o garfo, faca, colher e mão mesmo. É pão de queijo, churrasco, pastel de feira, pão na chapa, biscoito de polvilho, pamonha, arroz com feijão, brigadeiro, sushi - oops! pra mim sushi em São Paulo já é comida brasileira - pizza, garapa ....) acho que deixei de lado o prazer de mais difícil obtenção - escrever.

Mas como não quero ver uma horda de bonês vermelhos me atacando e levantando barracas de lona nas minhas terras (o primeiro que perguntar onde vão enfiar o pau da barraca eu mando pra Brasília!), vou mandar um curta hoje.

Decidi que vou falar de uma de minhas maiores frustações na vida.

E apesar de eu ser um cidadão comum, minha frustração não é eu não ser um cientista famoso, nem tão pouco ser uma estrela do Rock, muito menos é eu não ter conseguido nunca ligar pro programa do Bozo ...

É tudo mais simples, é apenas eu nunca ter tido um quarto só meu.

Isso mesmo, nunca! Nunquinha! Nã-nã-nina-nunca! Nie! Mai! Never!

Lá pelos idos de 1974, acontece que nasce um resendense (Isso mesmo, nasci em Resende. Mas não conte pra ninguém, por favor!) e esse pequeno joelho é mandado pra onde? Maternidade, onde divide o quarto com mais uns 27 pequenos joelhinhos ...

Perdida a primeira oportunidade! Mas eu ainda tinha uma esperança.

Sai do hospital e fui para a casa dos meus pais. Chegando lá fui para o quarto que era só meu ... e dos meus pais. Erda! Ficaria eu em um berço ao lado da cama deles. Mas tudo bem, ainda estou vivo, tenho esperanças.

Cresci. Já tava me achando velho para ficar no mesmo quarto que meus pais, e acho que meus pais também achavam isso, pois me colocaram em um quarto só meu!!!!! Alegria?! Não. Minha mãe não estava gorda não, estava é prenha mesmo, e o meu irmão foi dormir onde?

Adivinhem?

Isso mesmo, no MEU quarto novo ... Mais uma chance perdida. Mas a esperança é teimosa, mais teimosa que Sarney, Maluf, Zagalo e Arruda juntos.

Anos se passaram .... passo eu no Vestibular e vou para o interior estudar. 'Vou morar sozinho. Vou ter meu tão sonhado quarto só meu', penso eu. Mas alegria de pobre é como meninos de 17 anos fazendo sexo, dura pouco!

Fui morar numa república e, como a grana era curta, vai lá o desprovido de quarto próprio dividir o espaço com outros seres republicanos (essa coisa de capitalismo e o poder do dinheiro já começava a me deixar puto) ... Mais uma chance perdida. Mas a esperança ainda vive.

Termino a faculdade! Arrumo um emprego de trainee (substantivo masculino da língua inglesa que significa, numa tradução literal, "emprego de merda, com salário de passar fome, morar com os pais, e continuar não tendo um quarto próprio"). Nem preciso continuar, certo?

Daí, de volta para a casa dos meus pais, foi só mais um passo para o casamento... quarto do casal ... cama do casal ...

Bem, já que não tem jeito mesmo, é melhor aproveitar então a companhia na cama ... 45 segundos ... nove meses .... filho ....

Agora que já era mesmo. Uma cama pra três.

E o pior é que os três roncam ....

novembro 07, 2009

40 para os homens, é o mesmo que 30 para mulheres?

Estava eu aqui, sozinho, pensando no que fazer, quando decidi me dedicar a um assunto 'novo' - A Guerra dos Sexos. Sim, eu sei o que você está pensando, 'é coisa velha pra cacete, e que novidade você pode trazer pra discussão?'.... nenhuma, mas vou inventar um monte de coisa .....

Pois bem, tive um treinamento em "Breakthtough Thinking" essa semana com o Kevin Carroll (http://www.kevincarroll.com/) e uma das técnicas que aprendi é chamada 'reverse it' - ou algo assim.

Decidi então aplicar o 'reverse' à Guerra dos Sexos, o que me levou a pensar no assunto como "Similaridades dos Sexos" e, sendo mais específico, me levou a decidir falar sobre a questão "Vou ficar solteiro(a) pra sempre?" (pergunta sobre a qual mulheres começam a pensar aos 15 anos de idade - e se desesperam aos 30, e quanto à qual os homens sempre se dizem imunes - mentira!).

Vamos então para a nossa estória ....



Pedro e Bruno, dois bem sucedidos executivos, ambos com um pezinho na meia-idade ('39 and counting') se encontram no "Coffee Corner" (o exagero no uso inglês é só para parecer mais chique, afinal de contas, fui consultor por sete anos).

"Salve Pedrão, que gravata de viado!"
"E aí Bruno, já deu hoje!"
"Como vão as coisas cara?"
"Tudo indo. Só estou meio incomodado com uma coisa."
"Que foi? Vão promover aquela besta do Fúlvio?"
"Não, nada disso. Estou pensando na vida. Mais precisamente na minha vida de solteiro."
"Tudo bem, que mal tem nisso?"
"Acho que quero casar!"
... Para não encompridar demais o texto vou pular todo o blá-blá-blá que dois solteiros teriam sobre o casamento ...
"Então casa porra!"
"Não tá fácil cara. Lembre você que nós estamos em uma idade ruim para casar."
"Ruim por que?"
"Deixe eu te explicar. Conhecemos hoje muito menos mulheres solteiras do que conhecíamos quando tínhamos 25 anos, certo?"
"Certo!"
"Essas solteiras podem ser mais novas que a gente, o que é bom por serem gostosas, mas é ruim porque só querem nosso dinheiro."
"Tendo a concordar."
"Ou podem ser mais velhas, o que é ruim por serem velhas e não serem gostosas."
"Sim, mas ainda temos aquelas que são da nossa idade."
"Certo, e essas eu divido em três grupos: 1- as que são divorciadas. Ou seja, estão desiludidas com os homens e só vão te foder!"
"É ruim mesmo ser corno na nossa idade ... e o grupo 2, são quais?"
"São aquelas que estão no mesmo nível sócio-econômico-hierárquico que a gente. Ou seja, são 'control freaks', mais espertas que nós, pois passaram por mais dificuldades para chegar no mesmo lugar que a gente. Em resumo: vão meter uma coleira na gente e não teremos nenhuma chance...."
"Verdade ... vamos ter chefe aqui e em casa ... mas ainda temos uma esperança no grupo 3 ..."
"Grupo 3 é o que sobra e não menos pior. É mulher velha - afinal mulher com mais de 30 é velha, mesmo tendo nossa idade - e mal-sucedida. Só vão querer nosso dinheiro, e nem possuem o benefício de serem gostosas como as mais novas."
"É Pedro ..... você acabou de esgotar as possibilidades de um casamento adequado em nossa idade. Fica solteiro então porra!"
"Não Bruno, não quero ficar um velho solitário não. É muito triste. E só vejo uma saída para essa estória .... Vou virar gay, mudar para São Francisco e me casar ..."

Nesse momento o Bruno pensa consigo mesmo 'cara, o Pedro é meu amigo, preciso ajudar o cara a sair dessa ....... mas pensando melhor .....

"Pedro, te dou a maior força. Quer que eu te coma?"


** Antes que comecem a me apurrinhar as idéias, deixem-me citar o grande @MillorFernandes (vai no Tuiti e procura o cara lá!) -- "Eu não quero viver num mundo em que não possa fazer uma piada de mau gosto."

outubro 24, 2009

Gerentes e Meninos Malabaristas dos Semáforos

Acordei pensando nos meninos malabaristas dos semáforos. Não, não se preocupe pois não vou entrar em uma discussão antropo-sócio-político-econômica em relação a sociedades e seus marginalizados.

Pelo contrário, vou sim lembrar os cidadãos que estariam na direção oposta do abismo social. Aqueles senhores engravatados, pinguins europeus no verão trópico-brasileiro. Os gerentes do mundo corporativo.

Mas o que têm (sou do tempo em que o verbo ter, presente do indicativo, terceira pessoa do plural, tinha acento circunflexo) eles a ver com a estória. Perguntaria você?

Tudo. Respondo yo!

Na verdade são a mesma coisa.

Como assim a mesma coisa? Re-me-perguntaria você (claro que essa mesóclise não existe, 'licença poética' explico yo.)

Simples. Há alguns anos os meninos malabaristas dos semáforos se apresentavam munidos de "duas" bolinhas de tênis. Lembra?

E, há alguns anos, daríamos aquela cópia mal sucedida de Euro - a moedinha de um Virtual - para o pobre menino malabarista dos semáforos. Afinal de contas, ele fazia algo além de simplesmente 'pedir', ele nos entretia (entretenimento é algo pessoal da pessoa. Eu, particularmente, me contento com pouco. Tanto que fico horas assistindo ao campeonato de 'curling' aqui na TV. Mesmo sem entender 80% do jogo e, sem falar na extrema ridiculez de um bando de marmanjo varrendo gelo ser chamado de esporte.)



Mas e hoje? Se um menino malabarista dos semáforos não aparecer com, ao menos, três bolinhas - uma delas, preferencialmente, em chamas, você nem se perturba. Afinal de contas, três bolinhas - uma em brasas - é hoje o arroz com feijão da profissão de menino malabarista dos semáforos (mesmo essa sendo uma péssima analogia do ponto de vista do menino malabarista dos semáforos).

"O que moleque? Você quer um Virtual só porque fez malabarismo no semáforo com DUAS bolinhas? Eu mesmo consigo fazer isso. Assim, não espere você - ó pequeno maltrapilho - que eu vá pagar para alguém fazer algo que eu faço eu mesmo." E você leitor, não, não, não, não compare isso com o fato de eu pagar a conta da minha mulher no shopping. Afinal, o prazer que eu daria a ela nem se compara ao prazer que ela obtém dos vendedores de sapatos!

Até aqui você tá comigo, certo?

Migremos então a mesma cena para um escritório moderno, com paredes de vidro, monitores de LCD para todos os lados, copiadoras multi-funcionais (bons tempos em que podíamos chamá-las apenas de 'máquina de Xerox') todos trabalhando em open office (menos o chefe que, apesar de sempre citar 'somos todos iguais', ainda pensa que uns são mais iguais que os outros. O que me lembra de um bando de porcos em uma fazenda britânica no século passado**) ....

... bem, chega o gerente-regional-sul-suleste-júnior-de-assuntos-diversos-e-variados-de-relacionamento-com-o-cliente-de-segunda-a-terça-feiras-período-da-manhã com um print-out de um slide-deck com as 137 páginas dos relatório semanal (de suas semanas atrás) de vendas da regional-sul-suleste e o apresenta feliz e faceiro a seu superior direto, que atende pela alcunha corporativa de gerente-regional-sul-suleste-pleno-de-assuntos-diversos-e-variados-de-relacionamento-com-o-cliente-de-segunda-a-terça-feiras-período-da-manhã.

"Chefe, aqui está o relatório ......... para sua revisão."
"Muito bem, dê-me-lo cá." - tô com tesão de mesóclise hoje (só não faço idéia em relação aos acentos).
"E então chefe? Perfeito como sempre?"
"Bem ... Acho que tá bom. Mas ....."
"Bom!? Mas!? Como assim chefe? Você sempre me diz que o relatório tá ótimo. O que há de errado com ele?"
"Bem ... Sabe o que é Júnior?"
"Não, não faço idéia chefe!"
"É isso. O problema é exatamente esse. Ta bom, mas 'como sempre'. Entende?"
"Não!"
"O 'como sempre' é o problema meu filho. O mundo tem que evoluir. O relatório tem que melhorar de uma semana para outra."
"Maaaasss ...."
"Me diga, meu filho, onde você acha que a empresa estará daqui a cinco anos se você continuar a me entregar o mesmo relatório todas as semanas, sem mudança?"
"Bem, chefe. Eu acho que ...."
"Você não é pago para achar nada, meu filho. Você é pago para fazer o relatório de vendas semanal da regional-sul-suleste."
"Eu sei disso, chefe. E não é exatamente isso que eu lhe entreguei há três minutos."
"Sim, mas é o mesmo formato do relatório da semana passada. Olha aqui, até o índice é igual. E esses gráficos! Olhe essas cores em tom pastel, coisa do século passado!"
"Mas chefe ..."
"Olha isso, os mesmos clip-arts, as mesmas fontes, tudo muito século passado, assim não vai dar não .... todo mundo já sabe fazer isso... INACEITÁVEL Júnior, INACEITÁVEL."
"Mas chefe ..."
"'Mas chefe' coisa nenhuma. Vá agora mesmo mudar a cara dessa apresentação antes que eu o demita."
"Mas chefe, e o conteúdo? Como tá o conteúdo da apresentação?"
"Tá louco moleque? Como é que eu vou saber como tá o conteúdo? Ninguém liga pra isso não. O importante é o print-out do slide-deck ficar de pé sozinho e parecer trabalho de consultor. O resto são só números e gráficos."

E lá se vai Júnior, pela quinta vez nessa semana, mudar a cara da apresentação....

"Acho que eu deveria ter ido pro Circo como eu sempre quis. Pelo menos lá, ser palhaço é 'core business' ....."



** "Animal Farm"/ "Revolução dos Bichos" George Orwell, um livro que todos deveriam ler. Especialmente aqueles que votam em moluscos para a presidência (http://en.wikipedia.org/wiki/Animal_Farm).

outubro 11, 2009

Questão de gosto ...

Eu gosto de asinha de frango, e você? É claro que gosta! Afinal de contas quem não gosta de asinha de frango, certo? Deixe-me contar então um causo que me aconteceu lá pelos idos de 1993, numa cidadezinha do interiorzão bão desse São Paulo sem porteira.....

O ano é 1993, o World Trade Center sofria um atentado a bomba, a Intel embarca os primeiros chips do Pentium, nasce a World Wide Web no CERN, acontece a chacina da Candelária, a Microsoft lança o Ruindows 3.11, morre Ferruccio Lamborghini ... mas tudo isso é irrelevante (fora que é tudo coisa do Tinhoso), o mais importante é que nesse ano eu entrava na vida adulta de facto! Entrava eu na faculdade e passava a morar fora de casa.

Com a graça do bom jeito brasileiro preguiçoso, e a má qualidade do ensino público médio, esse que vos escreve não teve a competência para passar na USP e acabou indo para a UNESP de São José do Rio Preto, carinhosamente conhecida por todos como IBILCE* (ou IBIRCE, BIRCE e afins). Depois de poucos meses passei a agradecer a todo instante por não ter passado na USP. Se lá eu tivesse passado, iria ter que estudar.



Fui para Rio Preto pois minha mãe tinha família lá, então eu poderia ter abrigo temporário até achar um lugar definitivo para morar. O problema é que sou o segundo ser humano mais procrastinador do mundo - o primeiro é aquele técnico da TV a cabo, que vai passar na sua casa 'entre segunda e sexta feiras, no horário comercial' - então fui ficando, fui ficando, e o meu tio foi me expulsando de casa.

Precisei então buscar morada, e agora com pressa. Por acaso, duas repúblicas de pessoas que eu conhecia estavam abrindo vagas. E, por sorte, uma delas era de uns veteranos que estavam fazendo matérias com os bichos (comigo). Como eles me conheciam, acabei sendo aceito pela república Km0**

Blá blá blá à parte, sou um cara de muita sorte, pois todos os membros da república eram pessoas de família, muito NERDs no quesito estudo, mas que nunca deixavam passar uma chance sequer de, como dizíamos, 'ir pra putaria' - antes dos protestos clamorosos de nossas esposas, 'putaria' no contexto Km0-érico era tomar uma cachaça, passar numas 27 baladas diferentes, conversar sobre física, tomar mais umas cachaças, visitar outras repúblicas, fazer desfile de carro na Alberto Andaló, ir sem dormir para a faculdade e outras atividades semelhantes. Ou seja, tudo o que pessoas jovens com tempo sobrando deveriam fazer!

Comecei minha vida de morador de república, ou republicano como dizíamos.

Me espantavam certos aspectos simples dessa vida, como por exemplo, a 'caixinha'.

A 'caixinha' era, de fato, uma caixa prateada de whisky (Chivas se não estou enganado pelos finados neurônios vítimas da cachaça barata dessa época da vida) na qual, semanalmente, cada um de nós depositava uma quantia pré-acordada para subsidiarmos a compra de comida.

O melhor de tudo, algo que muitos descrentes chamariam de 'comportamento de primeiro mundo', é que não havia fiscalização sobre o depósito. Confiávamos em todos, e isso sempre funcionou perfeitamente.

Outro aspecto da 'caixinha' era que cada um de nós tinha um dia da semana estipulado para comprar a mistura, ou em termos de 'chefs', a proteína do dia.

Bem, é chegado meu primeiro dia de ser o provedor da mistura. Sinto aquela emoção de fazer a minha contribuição de fato à República. Pegar o dinheiro da caixinha, ir até o açougue ou supermercado, fazer a escolha ... Tudo sozinho! Que progresso da minha vida de parasita de mãe!

Tudo ia bem até que me dei conta de que eu precisava mesmo escolher o que comprar, e isso deveria estar dentro de dois critérios básico: 1 - ser gostoso, 2 - ser em quantidade suficiente para todos nós, marmanjos, saciarmos nossa fome de campo de concentração.

Bem, posto que quantidade multiplicada por preço unitário = preço total, e sendo a quantidade praticamente pré-definida ('muito') e o preço total limitado ao valor diário da caixinha (o total da caixinha deveria dar para cinco dias de sobrevivência), a única variável real da equação era o preço unitário.

Tá bom! O que é barato o suficiente e gostoso o suficiente? ..... penso por uns cinco minutos e BAM!

Asas de frango .......

Asinhas de frango, que delícia!!!! Carne, pele, pele, pele e mais pele. Não tem coisa melhor que asa de frango! (a essa afirmação complementaria um amigo nosso "Ou eu não sei comer asa de frango, ou você não sabe fazer sexo!").

Além do mais, asinha de frango seria uma boa mudança para aqueles republicanos 'non-gourmets' que comiam bife de coxão-duro dia sim, outro também.

Comprei então minhas asinhas de frango, e serelepe levei-as de volta para a Dona Onofra cozinhar ..... alguns minutos depois ... asinhas de frango ao molho de tomate .... deliciosas ... mais alguns minutos e chegariam os outros republicanos.

Me sentia orgulhoso de meu feito. Uma refeição por mim provida. Uma refeição DELICIOSA por mim provida. Tudo por meus méritos. Em meu 'novo mundo' apenas coadjuvantes seriam os frangos que morreram, o dono da avícola, os republicanos que pagaram pela comida ou a Dona Onofra que a cozinhou.

Chegam os convidados para esse banquete dos deuses. Quase me arrisco a dizer que na mesa os néctares do paraíso os esperavam. Preferi não fazê-lo. Deixei ao acaso a surpresa ........

MINHA surpresa devo dizer. Pois aqueles cornos, fídumaéguas, hereges, sem paladar, dos outros republicanos só faltaram me bater.

"Grillo que porra é essa?"
"Você tá louco bicho?"
"Isso não é comida! Só tem pele e osso nessa panela." foi o mais amigável que ouvi, o resto fica para vossa imaginação.

E foi assim que algumas mudanças relevantes aconteceriam em minha vida.

Nunca mais me permitiram comprar a mistura (o que, sendo preguiçoso como sou, achei ótimo.)
Nos quatro anos seguintes eu não comi asinhas de frango em Rio Preto (ainda bem que meu pai tinha uma avícola e em todas as férias eu me entupia de asinhas de frango);
Desde então  não consigo aceitar que bife é comida de gente.

Gosto é ... como diz o ditado popular ... cada um tem o seu!
Mas pelo amor de Deus, asa de frango é deliciosamente indiscutível! Não é como lagosta, que não tem gosto de nada!!!!!!!!


* Apesar de parecer uma sacanagem, IBILCE significa Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas

** Km0, era explicado como significando que é de onde partimos. Mas muitos clamavam que nunca saíamos do lugar. Não importa, para que correr se o que vale não é o destino, mas sim o caminho!?!?

outubro 08, 2009

Não se preocupe, laceia ...

Pois é, estava eu lá no shopping, em uma loja de roupas masculinas a experimentar uma calça. Olhava de um lado, puxava a barriga pro outro, dava aquela estufada no peito - afinal de contas, estava eu em frente a um espelho, tinha que ficar gatinho. Mais uma olhada na bunda - aquela em que você empina o cóccix e gira o pescoção pra trás (sei que vou ouvir um monte por causa disso. Mas aposto que TODOS fazem a mesma coisa) e veredito fechado, "Não vai dar não, está um pouco apertada, e é mais fácil eu engordar do que emagrecer!".

Ao que me responder o vendedor, "Não se preocupe Alexandre, esse tecido laceia com o uso. Vai ficar perfeita a calça."

E é aí que o bicho pega e eu começo a ficar puto.

Você já percebeu que quando você está comprando roupa os vendedores sempre vão te dizer o que você quer escutar sobre a peça em que está interessado?

Funciona assim:

Se você diz "É, tá boa! Mas um pouquinho apertada.", adivinha o que o vendedor vai dizer? "Não se preocupe amigo, é só usar que laceia!". Mas se você tivesse dito "É, tá boa! Mas um pouquinho larga.", sem dúvida alguma a resposta seria  ...

Quem quer tentar adivinhar? ...

Isso mesmo, a resposta é, "Besteira, quando lavar encolhe um pouquinho.".

Não ache que eu estou dizendo que eles estejam errados, afinal de contas o que você espera? É como perguntar para aquela moça do Sul, que trabalha como modelo e mora num flat se o seu pequeno amigo da região centro-pubiana é grande. Por algum acaso do destino você acha que há alguma chance de ela te dizer a verdade e mandar logo um "Grande!? Ah vá! Parece mais com uma cabecinha de tartaruga; pequenininho, enrugadinho e pra dentro!".

O meu problema não é com o fato dos vendedores mentirem, afinal eles só querem fazer o trabalho deles - vender - e se você não percebe que ele está te embromando, o problema é seu!

Minha implicância é com o fato de eles nos falarem os dois lados da mesma mentira, e, às vezes, sobre a mesma peça de roupa.

Será que eles acham que nós temos amnésia Miojo (instantânea)? Ou que nós somos burros mesmo?

Bem, isso me lembra de uma passagem com a minha esposa... Estava ela a reservar um vôo de São Paulo para Londrina, e o trecho de volta era meia hora mais longo que o de ida. Ela curiosamente pergunta para a atendente 'Por que a volta demora mais que a ida?', a resposta vocês não vão imaginar .... 'Minha senhora, vou estar verificando .... é por causa do fuso!', FUSO de São Paulo para Londrina!!!!..... Pode uma coisa dessas?

Voltando ao mentiroso, digo, vendedor .... é exatamente nesse momento que eu decido logo que não vou levar porra nenhuma da loja, não quero incentivar esse mal hábito da mentira!

outubro 04, 2009

Pelos, para que tê-los?

Acabei de achar os filhotes da sobranchelha do Elias Gleiser. Até aí tudo bem, não fosse o fato de eu os ter achado no espelho do banheiro aqui de casa!

Particularmente, eu acho que passar a ter as sobrancelhas do Elias Gleiser não seria motivo de reclamação. SE esse fosse o ÚNICO problema. Mas a sacanagem começa quando eu olho uns dez centímetros mais para cima...

Há alguns possuía eu o contorno completo do cabelo, hoje possuo uma bela careca motel (aquela que tem entrada, saída, e no meio tá foda!).

O processo de queda me surpreendeu, pois estava eu já cantando vitória por ter passado dos 25 anos de idade sem nenhuma queda capilar aparente. Todas as 'estatísticas' diziam que se era pra ficar careca, assim ficaríamos até os 25 anos. Diziam que passada essa idade limítrofe, os riscos de eu me tornar um ponto de referência - "Logo alí, do lado do careca narigudo!" - eram baixíssimos. Estatística de merda! Caíram-me os cabelos ....



Onde estão vocês, ó cabelos desengajados?
Infiéis!
Não lhes diz nada os anos que passamos juntos?
Não lhes vale nada todo o carinho que lhes dei, penteando-vos, lavando-vos, secando-vos?
Não, claro que não.
Valesse tudo isso algo, não me abandonariam,
não me deixariam a descoberto,
sofrendo com o ataque direto dos elementos a minha fronte (e teto).

De qualquer forma, o que me deixa mais puto em ficar careca não é o fato de perder os cabelos (bem, na verdade, isso me deixa puto pra cacete), o mais difícil mesmo é aceitar a contradição que é o crescimento dos outros pelos em locais totalmente desnecessários, se não, ridículos!

Caem os pelos da cabeça, crescem os pelos das costas, dos ombros, dos dedos, das sobrancelhas, da bunda .... ou seja, cresce aquele monte de pelo que fica RIDÍCULO.

A mim me parece até que é  uma coisa do tipo reprodução por semente - 'cai o pelo da cabeça, aterissa o mesmo em algum local mais ao sul, aterra, germina, cresce'.

Já diz o dito popular "Se cabelo fosse bom, não nasceria no suvaCU".

Anyway, com o processo de queda instaurado e irreversível (sempre tive a simples opinião pessoal que se meu cabelo começasse a cair, eu não iria nem a pau começar com aqueles tratamentos que seguram o cabelo e derrubam o pinto! Não que eu faça muito uso do último, mas é uma questão de princípios, homem que é homem fica careca mas de pemba dura) começo a buscar o motivo para tal maldade da natureza, recorrendo, obviamente, ao google ....

Pesquisa pra cá, pesquisa pra lá:

Causa número 1 da calvície: Carga genética (ou seja, hereditária). Descarto de pronto essa, já que meu pai tem muito mais cabelo que eu, meu irmão nunca perdeu um fio sequer .....

Causa número 2: Excesso de testosterona. Me apego a essa, pois me parece promissora, já que testosterona parece uma coisa boa de se ter em excesso. Mas trinta segundos, e uma olhada para as minhas partes pudentas, depois, desisto em aceitar essa explicação também. A correlação me pareceu muito "pequena".

Causas de número 3 a 27 .... muita embromação e pouca esperança.

Desisto de arrumar uma explicação e começo a avaliar um transplante de cabelos (sim, é transplante e não implante!). Desisto também, já que ficar com a cabeça parecendo uma horta de cebolinhas não me parece muito promissor.

Mas assim, meio que vindo do nada, me lembro de algo muito relevante para o assunto em pauta, mendigos! Sim, mendigos!!!

Pare para pensar. Você já viu mendigo careca? Aposto que não! Decidido, vou virar mendigo .....

Bem, me ponho a pensar por mais uns trinta segundos e me convenço de que os mendigos ficam carecas sim, só não perdem os cabelos (os cabelos se soltam da cabeça, mas como o mendigo não toma banho e nem penteia os cabelos, os fios que se soltam continuam alí, entrelaçados aos outros companheiros, presos como palha em ninho de passarinho).

Decido então me contentar com uma frase que me foi dita pelo Seo Ventriglião "Deus fez poucas cabeças brilhantes, as outras cobriu com cabelos." ... o que não me serve de muito alento, já que sou ateu ....
Deixem-me ir, preciso pegar a vassourinha para limpar o monte de pelos que agora se encontra entre a beirada da mesa e o teclado, ou a minha mulher me desce a vassoura na cabeça (e sem o colchão de cabelos a amortecer a pancada, vai doer).

setembro 26, 2009

Vamos vomitar?

Sabadão de sol, é verão em São José do Rio Preto, o que significa algo em torno dos 42 graus Celsius e que se o gás acabar, é só levar a comida pra esquentar no asfalto. Um dos republicanos identifica uma panela de feijão que foi esquecida em cima do fogão desde ontem.

"Caraca, esquecemos de guardar o feijão na geladeira ontem!"
"Esquenta não, já deve ter estragado mesmo. Deixa que a Dona Onofra joga ele fora na segunda."

Não, não foi um erro de digitação, a nossa empregada da república era mesmo a Dona Onofra.  Devo esclarecer que ela não limpava a casa direito, não passava roupa direito, não fazia comida direito, não lavava a louça direito e, em um resumo simples, não fazia nenhuma outra coisa direito. Maaaas, ela fazia tudo isso para nós, os republicanos, e só isso já é mais do que motivo suficiente para mantermos a Dona Onofra como a empregada oficial da república.

Lapso temporal. Já é meio dia de segunda-feira ......

Chegamos em casa depois de quatro horas de aula (tá bom, quatro horas de bate papo e passeios pelo corredor da faculdade). Nós, cinco marmanjos, de 19 anos cada, com uma fome de marmanjos de 19 anos. O que significa que a primeira coisa que fazemos é nos acotovelar em frente às panelas e fazer aqueles pequenos pratos de pedreiro. E, apesar de você estar achando que era tudo uma zona e nenhuma etiqueta tinha vez nessa mesa, uma coisa todos nós sabíamos: era pra dividr a comida de forma civilizada - com exceção do Gordinho que roubava a panela do frango e escondia embaixo da cama (mas isso é assunto pra outro dia).

Bem, mais um lapso temporal, esse menorzinho. Já é o meio da refeição .....

Encontra-se lá o Jack, sentadão no sofá da sala, em frente à TV e com o prato no colo, rotacionando e analisando com extrema curiosidade uma garfada de comida. O que, por si só, não nos tiraria o foco de nossos pratos de comida, mas 99% do nosso tempo era gasto procurando um jeito de sacanear um ao outro, então não podíamos deixar essa passar barato.

"Qual foi Jack? Achou uma barata na comida?" pergunta um de nós. A pergunta pode parecer apenas uma pergunta de sacanagem entre moleques, mas se você morou naquele apartamento da Silva Jardim, você saberia que a chance de uma barata (ou um grupo delas) lá aparecer em qualquer lugar e a qualquer hora era maior do que a chance de um de nós estar pensando em sexo.

"Pra falar a verdade ..... sim, achei!"

"SE FODEU ....." exclamamos em uníssono, com todo aquele escárnio e prazer natural a um adultolescente que vê um semelhante se ferrando.

"É, eu acho que sim." confirma o Jack antes de complementar "Mas acho que nessa não estou sozinho. Já que essa pequena barata não me parece estar crua. Ou seja, ela passou por um processo de cozimento. O que me leva a crer que se vocês não acharam uma barata, ao menos o caldo dela vocês comeram."

"Não fode Jack. Só porque você se ferrou não fique inventando história."

"Não tô de sacanagem não. Olha aqui ..." se levanta o Jack e traz a delinquente cozida - ainda em sua cama de arroz - para o processo de vistoria.

"É sério mesmo, ela tá cozida." confirma o Du. "E pela textura, parece ter sido no feijão."

Em menos de um segundo estamos todos apinhados na cozinha, onde o Du mergulha a concha no feijão, faz aquela voltinha básica com a concha e a levanta aos olhos do povo republicano.

Palavras não foram necessárias para que todos nós, simultaneamente, entendêssemos o significado daqueles três cadáveres que boiavam ao sabor do caldo Maggi, alho, cebola, sal e um pouco d'água. Por algum milagre - daqueles que não agregam valor pra ninguém - o feijão da sexta-feira não estragou, apesar de ter ficado aberto todo o final de semana em uma cozinha com temperatura média de sauna. E três dias foi tempo mais do que suficiente para que nossas amigas artrópodas tomassem nosso feijão de assalto (tipo um " ... nós vamos invadir sua praia ..." do Ultraje!).

Olhamos um para o outro, todos com a mesma dúvida "Vamos vomitar?"

"Acho que não precisa.  Afinal de contas, já comemos mesmo"
"Concordo."
"Isso mesmo."
"Tá na hora de voltar pra facul."
"Bóra!"



post scriptum (ou para vocês mais ignorantes: 'p.s.')> Essa é uma história real, toda e qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais não é mera coincidência (o que é óbvio, posto que é uma história real). Isso aconteceu mesmo na república Km 0, no ano de 1993. Aproveito para mandar um beijo pros republicanos Chico, Du, Felício, Valter (Jack), Rodrigo (Gordinho), e pro agregado republicano o Rogério (Bancário).

setembro 24, 2009

Achados e perdidos, ou perdidos e achados? O final da história ....

Queridos leitores! (sim, escrevo leitores no masculino, não por machismo ou algo assim, apenas porque se trata do plural para gêneros múltiplos oficial da língua portuguesa.)

Pois é, a crônica que postei aqui anteriormente sobre malas extraviadas é a mais completa verdade e aconteceu mesmo comigo em julho (texto original).

E, infelizmente, tenho um final para a história. Que foi arquitetado por aquele senhor que voltou das férias no Caribe antes da hora.

Como eu previ (só consigo prever coisa ruim, e sempre que ganho algo como sorteio, é sorteio do tipo "quem vai chutar a bunda do leão" ou "quem vai levar a sopa pra bisavó e ajudá-la a tomar banho") as ANTAS acharam minha mala e perderam ela de novo.

Como pode? Perder a mesma mala duas vezes? Acho que há um departamento oficial de 'como fazer merda com o sistema de bagagem', e, infelizmente, é o departamento mais eficiente da empresa.

Obviamente eu recebi uma indenização pela mala, 800 Libras Esterlinas, ou, em uma moeda mais fácil de entender: METADE do que valia o conteúdo da mala. Mas meu problema maior não é a grana, e sim, o meu contrabando de remédios do Brasil .... tudo perdido .... e vai tentar comprar medicamento sem receita aqui, nem a pau!

Ou seja, vou virar fã da fitoterapia..... ou não!

Abraços

setembro 20, 2009

171

Dezesseis horas, décimo terceiro dia do mês de agosto, uma sexta-feira, do ano do Senhor de 2009, todos no fórum, Seo Clemente a vítima e Zezão do Bonde o meliante. Sem citar, é claro, todo o entourage de cada um dos dois.

Anuncia então o meirinho que o Excelentíssimo Senhor Juíz de Direito Senhor Evisvaldo Saldanha adentra o recinto. "Todos de pé.". Ao que todos de pé se postam.

Costumeiro blá blá blá jurídico ........ 20 minutos depois ......

"Então Senhor Clemente, o senhor processa o réu por estelionato, correto?" pergunta o juiz (como se ele não já soubesse a resposta dessa e das próximas perguntas que ele fará).
"Sim, Vossa Excelência, esse fí-duma-égua.."

"Senhor Clemente, devo advertí-lo que o senhor não deve se dirigir ao fi-duma.... quero dizer, ao réu, dessa forma!"
"Me perdoe Excelência."
"Merítissimo, por favor."
"Me perdoe Meretríssimo!"
"É ME-RE-TÍS .... deixa pra lá. Continue, por favor."
"Perfeito Excelência, esse aí tem que ir pro xilindró. Ele me vendeu por cinco mir Reais um bilhete de loteria premiado, que valeria dois mião. Mas o bilhete não tava premiado coisa nenhuma."
"Entendo Senhor Clemente ... Mas me diga uma coisa, por que o senhor comprou o bilhete?"
"Uai, por que? Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que um bilhete premiado em dois mião deve valer, pelo menos, uns cinquenta mir Reais. Cinco mir era uma barganha boa demais!"
'É hoje' pensa consigo mesmo Dr Evisvaldo, ao mesmo tempo em que copia o número do processo para fazer uma fezinha no bicho antes de ir pra casa. '25. Vaca. Ah, quase esqueci do aniversário da Va... ôpa, Vera!'.
"Mas, Senhor Clemente, me esclareça uma coisa. O senhor estava acreditando que estava se dando bem em cima de alguém, correto?"
"Sim Excelência. Mas esse meliante aí me contou uma estória toda complicada de que não tinha como retirar o prêmio, que tinha um filhinho doente no Norte, que precisava correr porque estava atrasado pra pegar um avião, e pra isso precisava do dinheiro."
"Senhor Clemente, aqui em Jacutinga não tem aeroporto!"
"É!?"
"Deixa pra lá Senhor Clemente. Voltando ao que importa. O senhor acreditava então que levava vantagem sobre o Senhor José do Bonde, o que, se não é um crime, é uma falta de vergonha na cara e o motivo do Brasil estar como está."
"Sim. Mas Excelência ..."
"Cale-se que ainda não acabei."
"Me desculpe."
"E, ainda por cima, o senhor é uma besta! Quem em sã consciência venderia um bilhete premiado?"
"Mas Excelência, eu achei que ..."
"Caaaaaaaale-se! Meirinho, por favor, algeme o Senhor Clemente e o leve pra carceragem por crime de burrice e por envergonhar o Brasil. Senhor José do Bonde, o senhor está liberado."
"Mas Meritíssimo, eu não sou o réu, como eu posso ser preso?"
"Bem, Senhor Clemente. Segundo consta o senhor está processando o réu por ele ter tentado se dar bem em cima do senhor, correto?"
"Isso mesmo Excelência!"
"Perfeito. Mas o senhor também reconhece que quis se dar bem em cima dele, correto?"
"Mas ...."
"MAS ele conseguiu e o senhor não! E essa é a única diferença entre vocês. A sessão está encerrada!"

setembro 11, 2009

E o português?

Sete horas da manhã, toca o despertador, ele olha, xinga até a quinta geração do despertador, mas se lembra “É hoje! É hoje o dia que coloco meu burro na sombra!”, e então pula da cama como se não houvesse amanhã e começa a se preparar para sua entrevista de emprego. Melhor, para ‘A’ entrevista de emprego, aquela que promete ser a virada. Grande multinacional, salário perfeito, bônus melhor ainda, benefícios indescritíveis e lá vai ganância.

Uma hora depois, já estava arrumadinho, alimentado, e se sentia 100% psicologicamente preparado – afinal de contas, leu todas as dicas de ‘como se dar bem em entrevista de emprego, mesmo sendo um bosta’, todos os blogs sobre ‘o entrevistador de ontem, de hoje, e o milionário de amanhã’, não perdeu nenhuma edição do especial daquele site especializado em ‘as trinta e nove coisas em que todo o candidato a um emprego dos sonhos precisa ser mestre’ blá blá blá. Enfim, estava se sentindo o dono da empresa, podia se ver, em cinco anos, seis no máximo, com aquele Mustang amarelo, óculos Ray-Ban aviador, uma loiraça no banco do carona, um chevettão preto com quatro seguranças, e sendo entrevistado pela televisão.

Mais uma hora e estava ele entrando na recepção do prédio, e que prédio bonito, todo de vidro, 45 andares, câmeras de vigilância, seguranças, um sonho capitalista paulista. Cumprimentou a recepcionista com toda a educação que nunca demonstrou para as recepcionistas do prédio onde trabalha atualmente – um prédio meio feio, a outra metade horrível, portão de ferro fundido, onde um senhor (que a essa altura da vida já deveria estar jogando dominó no boteco com os amigos ) com um quepe preto e marrom faz as vezes de segurança – “Afinal de contas, hoje é dia de entrevista, e preciso ser um exemplo de cidadão educado, vai que estão esperando pelo relatório da recepção sobre ‘como se comportou o candidato’”, cinco minutos depois e está ele sentado no sofá à espera do chamado, mastiga o último dos seus Halls extra forte (o décimo, só para garantir um hálito natural de sauna úmida).


Passados agoniantes 15 minutos, ouve então a frase que mais aguardava “Senhor Jorge, o senhor Pedro o aguarda. Por aqui, por favor!”. E lá se vai o Jorge, só pensando nas aulas de golfe, degustação de vinho, single-maltes, final de semana em Angra, e todas aquelas coisas de gente chique e rica.


“Senhor Jorge, muito bom dia. Por favor sente-se!”


“Obrigado Pedro, licença”, respondeu, após pesar silenciosamente se soltava um informal ‘Pedrão’, ou um pomposo ‘Senhor Pedro’, na dúvida ficou com um simples ‘Pedro’ – afinal de contas 25 das dicas dos sites especializados diziam que era melhor ser informal e 24 eram mais adeptas da formalidade.


“O senhor sabe que nossa empresa faz muitos negócios com clientes estrangeiros, correto? Sendo assim, vamos começar essa entevista falando sobre suas habilidades no idioma inglês, por favor!”


“Claro, meu inglês é fluentissíssimo, cheguei até o nível 12 do Purple-and-Green!”


“Muito bem, passemos então ao próximo tópico. Suas habilidades na língua Portuguesa. O senhor pode, por favor, escrever nessa folha de papel aqui, uma redação sobre como o senhor aprendeu e desenvolveu seu inglês?!”, ao que lhe entregou uma folha de almaço. Não, não, perdão. Uma folha de sulfite, com o logo da empresa - afinal de contas, folha de almaço, Fritopan e Crush é coisa que ninguém mais conhece).


Nesse momento Jorge estava se sentindo traído, perdido, sem chão, a própria encarnação do ponto de interrogação. Afinal, nenhum dos sites, ou blogs, ou revistas especializados em entrevistas vencedoras havia sequer citado o risco(!) de um teste de português. Indignado bradou “Que absurdo é esse, é uma multinacional, o teste deveria ser de inglês!!!!”, mas bradou mentalmente, só para ele, pois ele não precisa de sites, blogs ou revistas especializados, para saber que não se grita com o entrevistador e potencial futuro chefe.


Conformado, afinal de contas a língua portuguesa é sua língua nativa – “o que pode dar errado?”, Jorge acompanha a assistente executiva (isso mesmo, secretária de multinacional é assistente executiva) à salinha ao lado, onde irá escrever as dolorosas linhas.


Meia hora depois, já com a boca parecendo lixa de tão seca - “Por que não deixei um, pelo menos, um Halls pra depois?” - estaca Jorge em frente a um portão de ferro fundido, de onde um tiozinho de quepe pergunta “Seo Jorge, o senhor não disse que estava doente? “.

setembro 07, 2009

Achados e perdidos, ou perdidos e achados?


Você já teve o (des)prazer de ter sua mala extraviada?
Eu também não havia tido, até essa semana.

Vamos à história, que não é conto de fadas, mas para a qual ainda conto eu com um final feliz.
Voltava eu de um país tropical; onde as palmeiras são verdes e as corinthianas mais felizes; com destino a um país alpino; onde o melhor time de futebol – esporte com muitos fãs – empataria se jogasse sozinho.

Até aí tudo bem, não fosse o pequeno detalhe de que eu haveria de fazer uma conexão em uma pequena ilha bretã, logo alí, do outro lado do canal da mancha.

Pois bem, tudo começou quando embarquei no aeroporto de Guarulhos (ou qualquer um dos seus outros 27 nomes ‘oficiais’) em um Jumbo - grande e belíssimo avião, que seria maravilhoso não fosse o fato de que o adjetivo ‘grande’ não se aplique também a seu interior, ou melhor, a suas poltronas da classe econômica.

Minhas malas, duas – uma pequena e uma grande como convém a todo viajante de respeito – também embarcaram no mesmo Jumbo, ou assim penso eu, pois quando terminava meu chek-in perguntei à atendente “Elas [minhas malas] vão direto para o meu destino, ou preciso recolhê-las na conexão?”, ao que responde a moça, com aquele sorriso de comercial de pasta de dentes “não se preocupe.” – e é sempre nesse ponto que eu me lembro de um velho amigo, o Sr Murphy, isso mesmo, aquele da lei. – “não há necessidade de retirá-las, pois elas irão diretamente até seu destino final! Boa viagem!”. Parto eu então, como boi no brete, para o processo de embarque, decolagem, vôo e pouso.

Não importam os detalhes anteriores à aproximação e pouso - até porque são bastante chatos e nada diferentes do que qualquer ser humano que já fez vôos transatlânticos em classe econômica conhece e amaldiçoa – foquemos no pouso.
Voz do piloto “….. get ready for Landing”, minutos finais, olho no relógio e .... vou ter exatamente uma hora para a conexão, “acho que dá!” minto eu a mim mesmo, sem muita convicção. Acho que dá pois a revista de bordo, o vídeo de boas vindas ao aeroporto e o texto em meu bilhete dizem a mesma coisa “se for realizar conexão internacional no mesmo terminal, se certifique de ter, pelo menos, uma hora.” Torço como torço pelo nossos pilotos brasileiros da Fórmula 1, sabendo que não vai adiantar nada, mas torço do mesmo jeito, ‘sou brasileiro e não desisto nunca’.

Mas minha esperança acaba mais cedo do que eu imaginava, quando o piloto manda “Senhores passageiros, é o comandante, necessitamos aguardar a liberação de uma posição para o desembarque .....”. Nessas horas que me pergunto, será que o piloto esqueceu de avisar que tava chegando? Ou será que emprestaram um portão para a galera do rugby desembarcar o chopp da balada (afinal era sexta-feira!)? Não importa, seis minutos depois o avião começa a se deslocar e minha conexão já era.

Devo dizer novamente ‘até aí tudo bem’, pego outro vôo para minha pequena cidade, vou esperar um tempo no saguão de embarque mas, ‘até aí tudo bem’, despachei minhas malas e não tenho que ficar carregando nada, além de eu poder comprar uns presentinhos pro filhote.
Vamos pular os detalhes de como eu olhei cinco livrarias diferentes (lojas diferentes da mesma empresa), vi as mesmas notícias na BBC umas seis vezes, escolhi o almoço umas quatro vezes (e acabei comendo outra coisa, como sempre), e de como olhei de cara feia para cada uma das 254 pessoas que tossiram, o que importa é que sete horas depois peguei meu vôo final, e em menos de duas horas estaria em casa.

Detalhe: Sentei naquela poltrona que não reclina porque tem uma saída de emergência na fileira de trás, “feliz em vê-lo novamente, Sr. Murphy!”.

Embarque, decolagem, vôo, pouso, alfândega, enfim: fila da bagagem. “Ufa, agora são só mais cinco minutos e ‘bôra’ pra casa!”, ledo engano. Quarenta minutos depois, e uma mala apenas no meu carrinho (obviamente que era a pequena e não a grande “Aceita um cafezinho, Sr. Murphy?”) me convenço de que é hora de reclamar da mala extraviada.

Bem, depois dessa 'pequena' introdução, me encaminho ao título desse texto, ao “Achados e Perdidos”. Analisemos o nome: “Achados e Perdidos”. Já me chama à atenção o fato de que isso é uma pobre tradução do inglês “Lost and Found”. Pobre tradução digo eu, pois se trata de um erro temporal, pois como podemos ver no original inglês as coisas acontecem na ordem correta, primeiro se perde algo – ‘Lost’ – e somente depois da perda é que se acha o mesmo algo – ‘Found’. Já em português a coisa é meio que invertida, primeiro se acha o que ainda não está perdido; ou pior ainda: se acha e perde-se de novo, de propósito, talvez em uma tentativa de justificar as oito horas de trabalho diárias (Imagine a cena 'dois funcionários ficam achando e perdendo a mesma coisa o dia todo, e, se você tiver sorte de ligar para eles exatamente no momento entre um achar e um perder, você consiga interromper o ciclo e receber o seu perdido de volta, já que nesse exato instante ele estará no estado ‘achado’.).

De volta à salinha do “Achados e Perdidos” respondo eu àquelas perguntas básicas “Cor?”, “Tamanho?”, “Conteúdo?”, “Onde foi que o Senhor a viu pela última vez?”, “Há quanto tempo o senhor a conhece?”, “Já discutiram a relação?”, talvez essa última pergunta sirva para eliminar a possibilidade da mala ter fugido com outro mala por já estar cansada de um relacionamento de exploração e de saco cheio de ouvir “Você está meio pesada!”.

Mais meia hora e recebo um número de protocolo e mais um sorriso de comercial de pasta de dentes e vou para casa, “até aí tudo bem” disse eu pra mim mesmo, “eles vão achar a mala e levar em casa”, o que, de fato, era uma coisa boa, pois a mala estava meio pesada mesmo.

Em casa, dia 1, “Merda, o barbeador estava na mala perdida. Preciso comprar outro!”, mais algum tempo e “Merda, o cortador de unhas estava na mala perdida. Vou ter que cortar a unha com aquele outro porcaria. Aí minha unha!”, mais algum tempo e “Merda, meu sapato novo estava na mala perdida, vou ter que trabalhar com o velho, e torcer para não chover, senão a água entra pelo buraco da sola!”.

Em casa, dia 2, me ligam da companhia aérea. Querem detalhes sobre coisas ‘não usuais’ na mala, para facilitar a identificação. O que eles esperam, uma bomba? Não, bombas eles não deixam carregar. Me lembro então de que havia um brinquedo de peças magnéticas na mala, “de que marca Senhor?”, como eu vou saber?!


Dia 3, me ligam de novo, “O senhor não consegue se lembrar de mais nada que seja ‘não usual’?”, respondo pra mim mesmo "Sim, o Michael Jackson tá escondido lá dentro!"...

Dia 4, “continuamos procurando, mas o senhor deve se preparar para nos dar uma descrição completa de todos os itens da mala, Senhor!”. Ainda bem que tenho uma memória de elefante, a mãe do meu filho!

Dia 5, e parece que o meu velho e querido amigo, Sr. Murphy, foi pro Caribe em férias – e ele pode ir tranquilo, pois sabe que não vai perder as malas – pois no telefone ouço “Há uma gravata vermelha nova em uma sacola laranja?”, me sinto feliz por não mais ter que suportar as 20 horas de compras, para repor o conteúdo da mala e respondo “Sim, isso mesmo!”, “Então encontramos sua mala, Senhor!”, e eu quase que podia ver o sorriso de comercial de pasta de dentes no rosto da atendente! Mas aí vem o “Alguém irá contatar o senhor para entregar a mala, passar bem!”, e eu já não me sinto mais tão aliviado assim.

Já se passaram dois dias e nada de me contatarem, talvez a mala esteja sendo transferida do setor de ‘achados e perdidos’ para o setor de ‘depois de achados, entregues pro cliente’. Pelo menos eu espero que eles já tenham criado esse setor e que o Caribe esteja agradável para um certo alguém não sair de lá tão cedo.

setembro 04, 2009

Pesquisa

“Pai, o que é tubo de raios católicos?”
“Não é católicos, é catódicos!”
“É verdade. O que é tubo de raios catódicos?”
“O que você acha que é meu filho?”
“Bem, eu acho que é um tubo, assim meio que cheio de raios, raios catódicos!”
“Isso mesmo meu filho! Muito bem!”, ao que o pai faz uma nota mental ‘lembrar de transferir a poupança da faculdade pro outro filho.’
“Mas pai! Isso não me ajuda em nada. O que é de verdade? Pra que serve?”
“Meu filho, larga de ser preguiçoso e vá pesquisar que você descobre.”
“Mas eu não sou preguiçoso pai. Eu apenas confio muito no senhor. Sem dizer que a mamãe sempre diz que o senhor ‘tem um cérebro ótimo, pelo menos isso tem que funcionar’.”
“Obrigado filho! Eu acho.” … “Agora vá logo pesquisar sobre o tubo de raios catódicos!”
“Como assim, pesquisar? O que é pesquisar?”
‘É hoje!!!’, pensou consigo mesmo, “Pesquisar é buscar uma explicação, buscar uma razão, buscar detalhes, com o objetivo de se ganhar mais conhecimento e entendimento de algo. No seu caso, o algo sendo o tubo de raios catódicos.”
“Ah, entendi! Obrigado pai!”
“De nada filho.”
“Mas…. outra coisa. Como se pesquisa?”
‘Realmente. É hoje!....’ “Vai na internet e procura na Wikipedia, meu filho querido.”
“Pai, a Wikipedia não é aquele negócio em que todo mundo pode escrever o que quiser?”
“Isso mesmo.”
“Então não serve.” “Quero dizer, vai que escrevem algo que não é verdade?”
“Mas filho, todo o conhecimento humano foi escrito por alguém, algum humano, que pode ter escrito o que quis, você nunca ouviu, por exemplo, que a história é escrita pelos vencedores?”
“Mas pai, eu pensei que os historiadores escreviam a história!”
“Esqueça!”
“Tá bom, mas e a questão da Wikipedia?”
“Que questão da Wikipedia?”
“A parte de tudo ser mentira.”
“Ah sim, é possível. Mas você deve sempre fazer uma averiguação das fontes usadas, buscar outras alternativas para validar a informação que você achou lá.”
“Como assim?”
“Bem, você deve ler o que diz o artigo da Wikipedia e depois comparar com outras fontes confiáveis, como universidades, revistas especializadas ou sites do governo.”
“Pai, você tá de sacanagem, né?!”
“Tá bom, esqueça os sites do governo!”
“Pai?”
“O que foi filho?”
“Me diz uma coisa, se a Wikipedia é uma fonte de pesquisas, e ela é recente, como o senhor fazia pesquisas na sua época? Afinal de contas o senhor sempre me contou umas coisas horríveis de quando o senhor era criança, como não ter email, internet, videogame, chat. Como era?”
“Bem, na verdade não era tão horrível assim, só era menos dinâmico. Mas na minha época fazíamos pesquisa em enciclopédias.”
“Enciclo-o-que?”
“Enciclopédia meu filho, do grego ‘conhecimento geral’. Eram coleções de livros enormes e grossos que um moço vestido com o terno do avô vendia nas nossas portas. Normalmente algo em torno das sete horas da manhã, aos sábados.”
“Ah, entendi! Eram coisas que as testemunhas de Jeová vendiam!”
“Não filho, esses vinham aos domingos às seis e meia da manhã.”
“Ah tá! Mas quem escrevia essas enciclopédias eram pessoas confiáveis, ou era qualquer um?”
“Não sei meu filho. Não sei. Você não tem uma pesquisa pra fazer?”
“É, tenho sim. Obrigado pai. É sempre um prazer ter essas discussões com você!”, na verdade o filho estava mais propenso a pensar ‘é sempre um prazer, além de ser muito divertido, te apurrinhar desse jeito!’
“De nada filho. Te amo!”
“A propósito pai, o que é tubo de raios catódicos?”

E então comecei ...

Todos já ouviram que há três coisas que devemos fazer antes de irmos em direção à Luz, 'plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro'.

Pois bem, já plantei algumas árvores (mas derrubei outras, preciso ver se estou no crédito ou no débito. Na dúvida vou espalhar umas sementes por aí), já tive um filho lindo (e não me chamem de pai coruja, posto que coruja tem filhos feios e os tem por lindos, o meu é lindo mesmo), e me encaminho agora à terceira, e muito mais complicada tarefa.

Para começar, todos nos dão os mesmos conselhos leia muito e escreva muito. Já li, e continuo lendo, bastante e preciso começar a escrever mais. E esse é o objetivo desse blog, escrever escrever escrever, e se tudo der certo, alguém vai ler também .....

Abraços e croniquemos