setembro 26, 2009

Vamos vomitar?

Sabadão de sol, é verão em São José do Rio Preto, o que significa algo em torno dos 42 graus Celsius e que se o gás acabar, é só levar a comida pra esquentar no asfalto. Um dos republicanos identifica uma panela de feijão que foi esquecida em cima do fogão desde ontem.

"Caraca, esquecemos de guardar o feijão na geladeira ontem!"
"Esquenta não, já deve ter estragado mesmo. Deixa que a Dona Onofra joga ele fora na segunda."

Não, não foi um erro de digitação, a nossa empregada da república era mesmo a Dona Onofra.  Devo esclarecer que ela não limpava a casa direito, não passava roupa direito, não fazia comida direito, não lavava a louça direito e, em um resumo simples, não fazia nenhuma outra coisa direito. Maaaas, ela fazia tudo isso para nós, os republicanos, e só isso já é mais do que motivo suficiente para mantermos a Dona Onofra como a empregada oficial da república.

Lapso temporal. Já é meio dia de segunda-feira ......

Chegamos em casa depois de quatro horas de aula (tá bom, quatro horas de bate papo e passeios pelo corredor da faculdade). Nós, cinco marmanjos, de 19 anos cada, com uma fome de marmanjos de 19 anos. O que significa que a primeira coisa que fazemos é nos acotovelar em frente às panelas e fazer aqueles pequenos pratos de pedreiro. E, apesar de você estar achando que era tudo uma zona e nenhuma etiqueta tinha vez nessa mesa, uma coisa todos nós sabíamos: era pra dividr a comida de forma civilizada - com exceção do Gordinho que roubava a panela do frango e escondia embaixo da cama (mas isso é assunto pra outro dia).

Bem, mais um lapso temporal, esse menorzinho. Já é o meio da refeição .....

Encontra-se lá o Jack, sentadão no sofá da sala, em frente à TV e com o prato no colo, rotacionando e analisando com extrema curiosidade uma garfada de comida. O que, por si só, não nos tiraria o foco de nossos pratos de comida, mas 99% do nosso tempo era gasto procurando um jeito de sacanear um ao outro, então não podíamos deixar essa passar barato.

"Qual foi Jack? Achou uma barata na comida?" pergunta um de nós. A pergunta pode parecer apenas uma pergunta de sacanagem entre moleques, mas se você morou naquele apartamento da Silva Jardim, você saberia que a chance de uma barata (ou um grupo delas) lá aparecer em qualquer lugar e a qualquer hora era maior do que a chance de um de nós estar pensando em sexo.

"Pra falar a verdade ..... sim, achei!"

"SE FODEU ....." exclamamos em uníssono, com todo aquele escárnio e prazer natural a um adultolescente que vê um semelhante se ferrando.

"É, eu acho que sim." confirma o Jack antes de complementar "Mas acho que nessa não estou sozinho. Já que essa pequena barata não me parece estar crua. Ou seja, ela passou por um processo de cozimento. O que me leva a crer que se vocês não acharam uma barata, ao menos o caldo dela vocês comeram."

"Não fode Jack. Só porque você se ferrou não fique inventando história."

"Não tô de sacanagem não. Olha aqui ..." se levanta o Jack e traz a delinquente cozida - ainda em sua cama de arroz - para o processo de vistoria.

"É sério mesmo, ela tá cozida." confirma o Du. "E pela textura, parece ter sido no feijão."

Em menos de um segundo estamos todos apinhados na cozinha, onde o Du mergulha a concha no feijão, faz aquela voltinha básica com a concha e a levanta aos olhos do povo republicano.

Palavras não foram necessárias para que todos nós, simultaneamente, entendêssemos o significado daqueles três cadáveres que boiavam ao sabor do caldo Maggi, alho, cebola, sal e um pouco d'água. Por algum milagre - daqueles que não agregam valor pra ninguém - o feijão da sexta-feira não estragou, apesar de ter ficado aberto todo o final de semana em uma cozinha com temperatura média de sauna. E três dias foi tempo mais do que suficiente para que nossas amigas artrópodas tomassem nosso feijão de assalto (tipo um " ... nós vamos invadir sua praia ..." do Ultraje!).

Olhamos um para o outro, todos com a mesma dúvida "Vamos vomitar?"

"Acho que não precisa.  Afinal de contas, já comemos mesmo"
"Concordo."
"Isso mesmo."
"Tá na hora de voltar pra facul."
"Bóra!"



post scriptum (ou para vocês mais ignorantes: 'p.s.')> Essa é uma história real, toda e qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais não é mera coincidência (o que é óbvio, posto que é uma história real). Isso aconteceu mesmo na república Km 0, no ano de 1993. Aproveito para mandar um beijo pros republicanos Chico, Du, Felício, Valter (Jack), Rodrigo (Gordinho), e pro agregado republicano o Rogério (Bancário).

setembro 24, 2009

Achados e perdidos, ou perdidos e achados? O final da história ....

Queridos leitores! (sim, escrevo leitores no masculino, não por machismo ou algo assim, apenas porque se trata do plural para gêneros múltiplos oficial da língua portuguesa.)

Pois é, a crônica que postei aqui anteriormente sobre malas extraviadas é a mais completa verdade e aconteceu mesmo comigo em julho (texto original).

E, infelizmente, tenho um final para a história. Que foi arquitetado por aquele senhor que voltou das férias no Caribe antes da hora.

Como eu previ (só consigo prever coisa ruim, e sempre que ganho algo como sorteio, é sorteio do tipo "quem vai chutar a bunda do leão" ou "quem vai levar a sopa pra bisavó e ajudá-la a tomar banho") as ANTAS acharam minha mala e perderam ela de novo.

Como pode? Perder a mesma mala duas vezes? Acho que há um departamento oficial de 'como fazer merda com o sistema de bagagem', e, infelizmente, é o departamento mais eficiente da empresa.

Obviamente eu recebi uma indenização pela mala, 800 Libras Esterlinas, ou, em uma moeda mais fácil de entender: METADE do que valia o conteúdo da mala. Mas meu problema maior não é a grana, e sim, o meu contrabando de remédios do Brasil .... tudo perdido .... e vai tentar comprar medicamento sem receita aqui, nem a pau!

Ou seja, vou virar fã da fitoterapia..... ou não!

Abraços

setembro 20, 2009

171

Dezesseis horas, décimo terceiro dia do mês de agosto, uma sexta-feira, do ano do Senhor de 2009, todos no fórum, Seo Clemente a vítima e Zezão do Bonde o meliante. Sem citar, é claro, todo o entourage de cada um dos dois.

Anuncia então o meirinho que o Excelentíssimo Senhor Juíz de Direito Senhor Evisvaldo Saldanha adentra o recinto. "Todos de pé.". Ao que todos de pé se postam.

Costumeiro blá blá blá jurídico ........ 20 minutos depois ......

"Então Senhor Clemente, o senhor processa o réu por estelionato, correto?" pergunta o juiz (como se ele não já soubesse a resposta dessa e das próximas perguntas que ele fará).
"Sim, Vossa Excelência, esse fí-duma-égua.."

"Senhor Clemente, devo advertí-lo que o senhor não deve se dirigir ao fi-duma.... quero dizer, ao réu, dessa forma!"
"Me perdoe Excelência."
"Merítissimo, por favor."
"Me perdoe Meretríssimo!"
"É ME-RE-TÍS .... deixa pra lá. Continue, por favor."
"Perfeito Excelência, esse aí tem que ir pro xilindró. Ele me vendeu por cinco mir Reais um bilhete de loteria premiado, que valeria dois mião. Mas o bilhete não tava premiado coisa nenhuma."
"Entendo Senhor Clemente ... Mas me diga uma coisa, por que o senhor comprou o bilhete?"
"Uai, por que? Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que um bilhete premiado em dois mião deve valer, pelo menos, uns cinquenta mir Reais. Cinco mir era uma barganha boa demais!"
'É hoje' pensa consigo mesmo Dr Evisvaldo, ao mesmo tempo em que copia o número do processo para fazer uma fezinha no bicho antes de ir pra casa. '25. Vaca. Ah, quase esqueci do aniversário da Va... ôpa, Vera!'.
"Mas, Senhor Clemente, me esclareça uma coisa. O senhor estava acreditando que estava se dando bem em cima de alguém, correto?"
"Sim Excelência. Mas esse meliante aí me contou uma estória toda complicada de que não tinha como retirar o prêmio, que tinha um filhinho doente no Norte, que precisava correr porque estava atrasado pra pegar um avião, e pra isso precisava do dinheiro."
"Senhor Clemente, aqui em Jacutinga não tem aeroporto!"
"É!?"
"Deixa pra lá Senhor Clemente. Voltando ao que importa. O senhor acreditava então que levava vantagem sobre o Senhor José do Bonde, o que, se não é um crime, é uma falta de vergonha na cara e o motivo do Brasil estar como está."
"Sim. Mas Excelência ..."
"Cale-se que ainda não acabei."
"Me desculpe."
"E, ainda por cima, o senhor é uma besta! Quem em sã consciência venderia um bilhete premiado?"
"Mas Excelência, eu achei que ..."
"Caaaaaaaale-se! Meirinho, por favor, algeme o Senhor Clemente e o leve pra carceragem por crime de burrice e por envergonhar o Brasil. Senhor José do Bonde, o senhor está liberado."
"Mas Meritíssimo, eu não sou o réu, como eu posso ser preso?"
"Bem, Senhor Clemente. Segundo consta o senhor está processando o réu por ele ter tentado se dar bem em cima do senhor, correto?"
"Isso mesmo Excelência!"
"Perfeito. Mas o senhor também reconhece que quis se dar bem em cima dele, correto?"
"Mas ...."
"MAS ele conseguiu e o senhor não! E essa é a única diferença entre vocês. A sessão está encerrada!"

setembro 11, 2009

E o português?

Sete horas da manhã, toca o despertador, ele olha, xinga até a quinta geração do despertador, mas se lembra “É hoje! É hoje o dia que coloco meu burro na sombra!”, e então pula da cama como se não houvesse amanhã e começa a se preparar para sua entrevista de emprego. Melhor, para ‘A’ entrevista de emprego, aquela que promete ser a virada. Grande multinacional, salário perfeito, bônus melhor ainda, benefícios indescritíveis e lá vai ganância.

Uma hora depois, já estava arrumadinho, alimentado, e se sentia 100% psicologicamente preparado – afinal de contas, leu todas as dicas de ‘como se dar bem em entrevista de emprego, mesmo sendo um bosta’, todos os blogs sobre ‘o entrevistador de ontem, de hoje, e o milionário de amanhã’, não perdeu nenhuma edição do especial daquele site especializado em ‘as trinta e nove coisas em que todo o candidato a um emprego dos sonhos precisa ser mestre’ blá blá blá. Enfim, estava se sentindo o dono da empresa, podia se ver, em cinco anos, seis no máximo, com aquele Mustang amarelo, óculos Ray-Ban aviador, uma loiraça no banco do carona, um chevettão preto com quatro seguranças, e sendo entrevistado pela televisão.

Mais uma hora e estava ele entrando na recepção do prédio, e que prédio bonito, todo de vidro, 45 andares, câmeras de vigilância, seguranças, um sonho capitalista paulista. Cumprimentou a recepcionista com toda a educação que nunca demonstrou para as recepcionistas do prédio onde trabalha atualmente – um prédio meio feio, a outra metade horrível, portão de ferro fundido, onde um senhor (que a essa altura da vida já deveria estar jogando dominó no boteco com os amigos ) com um quepe preto e marrom faz as vezes de segurança – “Afinal de contas, hoje é dia de entrevista, e preciso ser um exemplo de cidadão educado, vai que estão esperando pelo relatório da recepção sobre ‘como se comportou o candidato’”, cinco minutos depois e está ele sentado no sofá à espera do chamado, mastiga o último dos seus Halls extra forte (o décimo, só para garantir um hálito natural de sauna úmida).


Passados agoniantes 15 minutos, ouve então a frase que mais aguardava “Senhor Jorge, o senhor Pedro o aguarda. Por aqui, por favor!”. E lá se vai o Jorge, só pensando nas aulas de golfe, degustação de vinho, single-maltes, final de semana em Angra, e todas aquelas coisas de gente chique e rica.


“Senhor Jorge, muito bom dia. Por favor sente-se!”


“Obrigado Pedro, licença”, respondeu, após pesar silenciosamente se soltava um informal ‘Pedrão’, ou um pomposo ‘Senhor Pedro’, na dúvida ficou com um simples ‘Pedro’ – afinal de contas 25 das dicas dos sites especializados diziam que era melhor ser informal e 24 eram mais adeptas da formalidade.


“O senhor sabe que nossa empresa faz muitos negócios com clientes estrangeiros, correto? Sendo assim, vamos começar essa entevista falando sobre suas habilidades no idioma inglês, por favor!”


“Claro, meu inglês é fluentissíssimo, cheguei até o nível 12 do Purple-and-Green!”


“Muito bem, passemos então ao próximo tópico. Suas habilidades na língua Portuguesa. O senhor pode, por favor, escrever nessa folha de papel aqui, uma redação sobre como o senhor aprendeu e desenvolveu seu inglês?!”, ao que lhe entregou uma folha de almaço. Não, não, perdão. Uma folha de sulfite, com o logo da empresa - afinal de contas, folha de almaço, Fritopan e Crush é coisa que ninguém mais conhece).


Nesse momento Jorge estava se sentindo traído, perdido, sem chão, a própria encarnação do ponto de interrogação. Afinal, nenhum dos sites, ou blogs, ou revistas especializados em entrevistas vencedoras havia sequer citado o risco(!) de um teste de português. Indignado bradou “Que absurdo é esse, é uma multinacional, o teste deveria ser de inglês!!!!”, mas bradou mentalmente, só para ele, pois ele não precisa de sites, blogs ou revistas especializados, para saber que não se grita com o entrevistador e potencial futuro chefe.


Conformado, afinal de contas a língua portuguesa é sua língua nativa – “o que pode dar errado?”, Jorge acompanha a assistente executiva (isso mesmo, secretária de multinacional é assistente executiva) à salinha ao lado, onde irá escrever as dolorosas linhas.


Meia hora depois, já com a boca parecendo lixa de tão seca - “Por que não deixei um, pelo menos, um Halls pra depois?” - estaca Jorge em frente a um portão de ferro fundido, de onde um tiozinho de quepe pergunta “Seo Jorge, o senhor não disse que estava doente? “.

setembro 07, 2009

Achados e perdidos, ou perdidos e achados?


Você já teve o (des)prazer de ter sua mala extraviada?
Eu também não havia tido, até essa semana.

Vamos à história, que não é conto de fadas, mas para a qual ainda conto eu com um final feliz.
Voltava eu de um país tropical; onde as palmeiras são verdes e as corinthianas mais felizes; com destino a um país alpino; onde o melhor time de futebol – esporte com muitos fãs – empataria se jogasse sozinho.

Até aí tudo bem, não fosse o pequeno detalhe de que eu haveria de fazer uma conexão em uma pequena ilha bretã, logo alí, do outro lado do canal da mancha.

Pois bem, tudo começou quando embarquei no aeroporto de Guarulhos (ou qualquer um dos seus outros 27 nomes ‘oficiais’) em um Jumbo - grande e belíssimo avião, que seria maravilhoso não fosse o fato de que o adjetivo ‘grande’ não se aplique também a seu interior, ou melhor, a suas poltronas da classe econômica.

Minhas malas, duas – uma pequena e uma grande como convém a todo viajante de respeito – também embarcaram no mesmo Jumbo, ou assim penso eu, pois quando terminava meu chek-in perguntei à atendente “Elas [minhas malas] vão direto para o meu destino, ou preciso recolhê-las na conexão?”, ao que responde a moça, com aquele sorriso de comercial de pasta de dentes “não se preocupe.” – e é sempre nesse ponto que eu me lembro de um velho amigo, o Sr Murphy, isso mesmo, aquele da lei. – “não há necessidade de retirá-las, pois elas irão diretamente até seu destino final! Boa viagem!”. Parto eu então, como boi no brete, para o processo de embarque, decolagem, vôo e pouso.

Não importam os detalhes anteriores à aproximação e pouso - até porque são bastante chatos e nada diferentes do que qualquer ser humano que já fez vôos transatlânticos em classe econômica conhece e amaldiçoa – foquemos no pouso.
Voz do piloto “….. get ready for Landing”, minutos finais, olho no relógio e .... vou ter exatamente uma hora para a conexão, “acho que dá!” minto eu a mim mesmo, sem muita convicção. Acho que dá pois a revista de bordo, o vídeo de boas vindas ao aeroporto e o texto em meu bilhete dizem a mesma coisa “se for realizar conexão internacional no mesmo terminal, se certifique de ter, pelo menos, uma hora.” Torço como torço pelo nossos pilotos brasileiros da Fórmula 1, sabendo que não vai adiantar nada, mas torço do mesmo jeito, ‘sou brasileiro e não desisto nunca’.

Mas minha esperança acaba mais cedo do que eu imaginava, quando o piloto manda “Senhores passageiros, é o comandante, necessitamos aguardar a liberação de uma posição para o desembarque .....”. Nessas horas que me pergunto, será que o piloto esqueceu de avisar que tava chegando? Ou será que emprestaram um portão para a galera do rugby desembarcar o chopp da balada (afinal era sexta-feira!)? Não importa, seis minutos depois o avião começa a se deslocar e minha conexão já era.

Devo dizer novamente ‘até aí tudo bem’, pego outro vôo para minha pequena cidade, vou esperar um tempo no saguão de embarque mas, ‘até aí tudo bem’, despachei minhas malas e não tenho que ficar carregando nada, além de eu poder comprar uns presentinhos pro filhote.
Vamos pular os detalhes de como eu olhei cinco livrarias diferentes (lojas diferentes da mesma empresa), vi as mesmas notícias na BBC umas seis vezes, escolhi o almoço umas quatro vezes (e acabei comendo outra coisa, como sempre), e de como olhei de cara feia para cada uma das 254 pessoas que tossiram, o que importa é que sete horas depois peguei meu vôo final, e em menos de duas horas estaria em casa.

Detalhe: Sentei naquela poltrona que não reclina porque tem uma saída de emergência na fileira de trás, “feliz em vê-lo novamente, Sr. Murphy!”.

Embarque, decolagem, vôo, pouso, alfândega, enfim: fila da bagagem. “Ufa, agora são só mais cinco minutos e ‘bôra’ pra casa!”, ledo engano. Quarenta minutos depois, e uma mala apenas no meu carrinho (obviamente que era a pequena e não a grande “Aceita um cafezinho, Sr. Murphy?”) me convenço de que é hora de reclamar da mala extraviada.

Bem, depois dessa 'pequena' introdução, me encaminho ao título desse texto, ao “Achados e Perdidos”. Analisemos o nome: “Achados e Perdidos”. Já me chama à atenção o fato de que isso é uma pobre tradução do inglês “Lost and Found”. Pobre tradução digo eu, pois se trata de um erro temporal, pois como podemos ver no original inglês as coisas acontecem na ordem correta, primeiro se perde algo – ‘Lost’ – e somente depois da perda é que se acha o mesmo algo – ‘Found’. Já em português a coisa é meio que invertida, primeiro se acha o que ainda não está perdido; ou pior ainda: se acha e perde-se de novo, de propósito, talvez em uma tentativa de justificar as oito horas de trabalho diárias (Imagine a cena 'dois funcionários ficam achando e perdendo a mesma coisa o dia todo, e, se você tiver sorte de ligar para eles exatamente no momento entre um achar e um perder, você consiga interromper o ciclo e receber o seu perdido de volta, já que nesse exato instante ele estará no estado ‘achado’.).

De volta à salinha do “Achados e Perdidos” respondo eu àquelas perguntas básicas “Cor?”, “Tamanho?”, “Conteúdo?”, “Onde foi que o Senhor a viu pela última vez?”, “Há quanto tempo o senhor a conhece?”, “Já discutiram a relação?”, talvez essa última pergunta sirva para eliminar a possibilidade da mala ter fugido com outro mala por já estar cansada de um relacionamento de exploração e de saco cheio de ouvir “Você está meio pesada!”.

Mais meia hora e recebo um número de protocolo e mais um sorriso de comercial de pasta de dentes e vou para casa, “até aí tudo bem” disse eu pra mim mesmo, “eles vão achar a mala e levar em casa”, o que, de fato, era uma coisa boa, pois a mala estava meio pesada mesmo.

Em casa, dia 1, “Merda, o barbeador estava na mala perdida. Preciso comprar outro!”, mais algum tempo e “Merda, o cortador de unhas estava na mala perdida. Vou ter que cortar a unha com aquele outro porcaria. Aí minha unha!”, mais algum tempo e “Merda, meu sapato novo estava na mala perdida, vou ter que trabalhar com o velho, e torcer para não chover, senão a água entra pelo buraco da sola!”.

Em casa, dia 2, me ligam da companhia aérea. Querem detalhes sobre coisas ‘não usuais’ na mala, para facilitar a identificação. O que eles esperam, uma bomba? Não, bombas eles não deixam carregar. Me lembro então de que havia um brinquedo de peças magnéticas na mala, “de que marca Senhor?”, como eu vou saber?!


Dia 3, me ligam de novo, “O senhor não consegue se lembrar de mais nada que seja ‘não usual’?”, respondo pra mim mesmo "Sim, o Michael Jackson tá escondido lá dentro!"...

Dia 4, “continuamos procurando, mas o senhor deve se preparar para nos dar uma descrição completa de todos os itens da mala, Senhor!”. Ainda bem que tenho uma memória de elefante, a mãe do meu filho!

Dia 5, e parece que o meu velho e querido amigo, Sr. Murphy, foi pro Caribe em férias – e ele pode ir tranquilo, pois sabe que não vai perder as malas – pois no telefone ouço “Há uma gravata vermelha nova em uma sacola laranja?”, me sinto feliz por não mais ter que suportar as 20 horas de compras, para repor o conteúdo da mala e respondo “Sim, isso mesmo!”, “Então encontramos sua mala, Senhor!”, e eu quase que podia ver o sorriso de comercial de pasta de dentes no rosto da atendente! Mas aí vem o “Alguém irá contatar o senhor para entregar a mala, passar bem!”, e eu já não me sinto mais tão aliviado assim.

Já se passaram dois dias e nada de me contatarem, talvez a mala esteja sendo transferida do setor de ‘achados e perdidos’ para o setor de ‘depois de achados, entregues pro cliente’. Pelo menos eu espero que eles já tenham criado esse setor e que o Caribe esteja agradável para um certo alguém não sair de lá tão cedo.

setembro 04, 2009

Pesquisa

“Pai, o que é tubo de raios católicos?”
“Não é católicos, é catódicos!”
“É verdade. O que é tubo de raios catódicos?”
“O que você acha que é meu filho?”
“Bem, eu acho que é um tubo, assim meio que cheio de raios, raios catódicos!”
“Isso mesmo meu filho! Muito bem!”, ao que o pai faz uma nota mental ‘lembrar de transferir a poupança da faculdade pro outro filho.’
“Mas pai! Isso não me ajuda em nada. O que é de verdade? Pra que serve?”
“Meu filho, larga de ser preguiçoso e vá pesquisar que você descobre.”
“Mas eu não sou preguiçoso pai. Eu apenas confio muito no senhor. Sem dizer que a mamãe sempre diz que o senhor ‘tem um cérebro ótimo, pelo menos isso tem que funcionar’.”
“Obrigado filho! Eu acho.” … “Agora vá logo pesquisar sobre o tubo de raios catódicos!”
“Como assim, pesquisar? O que é pesquisar?”
‘É hoje!!!’, pensou consigo mesmo, “Pesquisar é buscar uma explicação, buscar uma razão, buscar detalhes, com o objetivo de se ganhar mais conhecimento e entendimento de algo. No seu caso, o algo sendo o tubo de raios catódicos.”
“Ah, entendi! Obrigado pai!”
“De nada filho.”
“Mas…. outra coisa. Como se pesquisa?”
‘Realmente. É hoje!....’ “Vai na internet e procura na Wikipedia, meu filho querido.”
“Pai, a Wikipedia não é aquele negócio em que todo mundo pode escrever o que quiser?”
“Isso mesmo.”
“Então não serve.” “Quero dizer, vai que escrevem algo que não é verdade?”
“Mas filho, todo o conhecimento humano foi escrito por alguém, algum humano, que pode ter escrito o que quis, você nunca ouviu, por exemplo, que a história é escrita pelos vencedores?”
“Mas pai, eu pensei que os historiadores escreviam a história!”
“Esqueça!”
“Tá bom, mas e a questão da Wikipedia?”
“Que questão da Wikipedia?”
“A parte de tudo ser mentira.”
“Ah sim, é possível. Mas você deve sempre fazer uma averiguação das fontes usadas, buscar outras alternativas para validar a informação que você achou lá.”
“Como assim?”
“Bem, você deve ler o que diz o artigo da Wikipedia e depois comparar com outras fontes confiáveis, como universidades, revistas especializadas ou sites do governo.”
“Pai, você tá de sacanagem, né?!”
“Tá bom, esqueça os sites do governo!”
“Pai?”
“O que foi filho?”
“Me diz uma coisa, se a Wikipedia é uma fonte de pesquisas, e ela é recente, como o senhor fazia pesquisas na sua época? Afinal de contas o senhor sempre me contou umas coisas horríveis de quando o senhor era criança, como não ter email, internet, videogame, chat. Como era?”
“Bem, na verdade não era tão horrível assim, só era menos dinâmico. Mas na minha época fazíamos pesquisa em enciclopédias.”
“Enciclo-o-que?”
“Enciclopédia meu filho, do grego ‘conhecimento geral’. Eram coleções de livros enormes e grossos que um moço vestido com o terno do avô vendia nas nossas portas. Normalmente algo em torno das sete horas da manhã, aos sábados.”
“Ah, entendi! Eram coisas que as testemunhas de Jeová vendiam!”
“Não filho, esses vinham aos domingos às seis e meia da manhã.”
“Ah tá! Mas quem escrevia essas enciclopédias eram pessoas confiáveis, ou era qualquer um?”
“Não sei meu filho. Não sei. Você não tem uma pesquisa pra fazer?”
“É, tenho sim. Obrigado pai. É sempre um prazer ter essas discussões com você!”, na verdade o filho estava mais propenso a pensar ‘é sempre um prazer, além de ser muito divertido, te apurrinhar desse jeito!’
“De nada filho. Te amo!”
“A propósito pai, o que é tubo de raios catódicos?”

E então comecei ...

Todos já ouviram que há três coisas que devemos fazer antes de irmos em direção à Luz, 'plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro'.

Pois bem, já plantei algumas árvores (mas derrubei outras, preciso ver se estou no crédito ou no débito. Na dúvida vou espalhar umas sementes por aí), já tive um filho lindo (e não me chamem de pai coruja, posto que coruja tem filhos feios e os tem por lindos, o meu é lindo mesmo), e me encaminho agora à terceira, e muito mais complicada tarefa.

Para começar, todos nos dão os mesmos conselhos leia muito e escreva muito. Já li, e continuo lendo, bastante e preciso começar a escrever mais. E esse é o objetivo desse blog, escrever escrever escrever, e se tudo der certo, alguém vai ler também .....

Abraços e croniquemos