setembro 07, 2009

Achados e perdidos, ou perdidos e achados?


Você já teve o (des)prazer de ter sua mala extraviada?
Eu também não havia tido, até essa semana.

Vamos à história, que não é conto de fadas, mas para a qual ainda conto eu com um final feliz.
Voltava eu de um país tropical; onde as palmeiras são verdes e as corinthianas mais felizes; com destino a um país alpino; onde o melhor time de futebol – esporte com muitos fãs – empataria se jogasse sozinho.

Até aí tudo bem, não fosse o pequeno detalhe de que eu haveria de fazer uma conexão em uma pequena ilha bretã, logo alí, do outro lado do canal da mancha.

Pois bem, tudo começou quando embarquei no aeroporto de Guarulhos (ou qualquer um dos seus outros 27 nomes ‘oficiais’) em um Jumbo - grande e belíssimo avião, que seria maravilhoso não fosse o fato de que o adjetivo ‘grande’ não se aplique também a seu interior, ou melhor, a suas poltronas da classe econômica.

Minhas malas, duas – uma pequena e uma grande como convém a todo viajante de respeito – também embarcaram no mesmo Jumbo, ou assim penso eu, pois quando terminava meu chek-in perguntei à atendente “Elas [minhas malas] vão direto para o meu destino, ou preciso recolhê-las na conexão?”, ao que responde a moça, com aquele sorriso de comercial de pasta de dentes “não se preocupe.” – e é sempre nesse ponto que eu me lembro de um velho amigo, o Sr Murphy, isso mesmo, aquele da lei. – “não há necessidade de retirá-las, pois elas irão diretamente até seu destino final! Boa viagem!”. Parto eu então, como boi no brete, para o processo de embarque, decolagem, vôo e pouso.

Não importam os detalhes anteriores à aproximação e pouso - até porque são bastante chatos e nada diferentes do que qualquer ser humano que já fez vôos transatlânticos em classe econômica conhece e amaldiçoa – foquemos no pouso.
Voz do piloto “….. get ready for Landing”, minutos finais, olho no relógio e .... vou ter exatamente uma hora para a conexão, “acho que dá!” minto eu a mim mesmo, sem muita convicção. Acho que dá pois a revista de bordo, o vídeo de boas vindas ao aeroporto e o texto em meu bilhete dizem a mesma coisa “se for realizar conexão internacional no mesmo terminal, se certifique de ter, pelo menos, uma hora.” Torço como torço pelo nossos pilotos brasileiros da Fórmula 1, sabendo que não vai adiantar nada, mas torço do mesmo jeito, ‘sou brasileiro e não desisto nunca’.

Mas minha esperança acaba mais cedo do que eu imaginava, quando o piloto manda “Senhores passageiros, é o comandante, necessitamos aguardar a liberação de uma posição para o desembarque .....”. Nessas horas que me pergunto, será que o piloto esqueceu de avisar que tava chegando? Ou será que emprestaram um portão para a galera do rugby desembarcar o chopp da balada (afinal era sexta-feira!)? Não importa, seis minutos depois o avião começa a se deslocar e minha conexão já era.

Devo dizer novamente ‘até aí tudo bem’, pego outro vôo para minha pequena cidade, vou esperar um tempo no saguão de embarque mas, ‘até aí tudo bem’, despachei minhas malas e não tenho que ficar carregando nada, além de eu poder comprar uns presentinhos pro filhote.
Vamos pular os detalhes de como eu olhei cinco livrarias diferentes (lojas diferentes da mesma empresa), vi as mesmas notícias na BBC umas seis vezes, escolhi o almoço umas quatro vezes (e acabei comendo outra coisa, como sempre), e de como olhei de cara feia para cada uma das 254 pessoas que tossiram, o que importa é que sete horas depois peguei meu vôo final, e em menos de duas horas estaria em casa.

Detalhe: Sentei naquela poltrona que não reclina porque tem uma saída de emergência na fileira de trás, “feliz em vê-lo novamente, Sr. Murphy!”.

Embarque, decolagem, vôo, pouso, alfândega, enfim: fila da bagagem. “Ufa, agora são só mais cinco minutos e ‘bôra’ pra casa!”, ledo engano. Quarenta minutos depois, e uma mala apenas no meu carrinho (obviamente que era a pequena e não a grande “Aceita um cafezinho, Sr. Murphy?”) me convenço de que é hora de reclamar da mala extraviada.

Bem, depois dessa 'pequena' introdução, me encaminho ao título desse texto, ao “Achados e Perdidos”. Analisemos o nome: “Achados e Perdidos”. Já me chama à atenção o fato de que isso é uma pobre tradução do inglês “Lost and Found”. Pobre tradução digo eu, pois se trata de um erro temporal, pois como podemos ver no original inglês as coisas acontecem na ordem correta, primeiro se perde algo – ‘Lost’ – e somente depois da perda é que se acha o mesmo algo – ‘Found’. Já em português a coisa é meio que invertida, primeiro se acha o que ainda não está perdido; ou pior ainda: se acha e perde-se de novo, de propósito, talvez em uma tentativa de justificar as oito horas de trabalho diárias (Imagine a cena 'dois funcionários ficam achando e perdendo a mesma coisa o dia todo, e, se você tiver sorte de ligar para eles exatamente no momento entre um achar e um perder, você consiga interromper o ciclo e receber o seu perdido de volta, já que nesse exato instante ele estará no estado ‘achado’.).

De volta à salinha do “Achados e Perdidos” respondo eu àquelas perguntas básicas “Cor?”, “Tamanho?”, “Conteúdo?”, “Onde foi que o Senhor a viu pela última vez?”, “Há quanto tempo o senhor a conhece?”, “Já discutiram a relação?”, talvez essa última pergunta sirva para eliminar a possibilidade da mala ter fugido com outro mala por já estar cansada de um relacionamento de exploração e de saco cheio de ouvir “Você está meio pesada!”.

Mais meia hora e recebo um número de protocolo e mais um sorriso de comercial de pasta de dentes e vou para casa, “até aí tudo bem” disse eu pra mim mesmo, “eles vão achar a mala e levar em casa”, o que, de fato, era uma coisa boa, pois a mala estava meio pesada mesmo.

Em casa, dia 1, “Merda, o barbeador estava na mala perdida. Preciso comprar outro!”, mais algum tempo e “Merda, o cortador de unhas estava na mala perdida. Vou ter que cortar a unha com aquele outro porcaria. Aí minha unha!”, mais algum tempo e “Merda, meu sapato novo estava na mala perdida, vou ter que trabalhar com o velho, e torcer para não chover, senão a água entra pelo buraco da sola!”.

Em casa, dia 2, me ligam da companhia aérea. Querem detalhes sobre coisas ‘não usuais’ na mala, para facilitar a identificação. O que eles esperam, uma bomba? Não, bombas eles não deixam carregar. Me lembro então de que havia um brinquedo de peças magnéticas na mala, “de que marca Senhor?”, como eu vou saber?!


Dia 3, me ligam de novo, “O senhor não consegue se lembrar de mais nada que seja ‘não usual’?”, respondo pra mim mesmo "Sim, o Michael Jackson tá escondido lá dentro!"...

Dia 4, “continuamos procurando, mas o senhor deve se preparar para nos dar uma descrição completa de todos os itens da mala, Senhor!”. Ainda bem que tenho uma memória de elefante, a mãe do meu filho!

Dia 5, e parece que o meu velho e querido amigo, Sr. Murphy, foi pro Caribe em férias – e ele pode ir tranquilo, pois sabe que não vai perder as malas – pois no telefone ouço “Há uma gravata vermelha nova em uma sacola laranja?”, me sinto feliz por não mais ter que suportar as 20 horas de compras, para repor o conteúdo da mala e respondo “Sim, isso mesmo!”, “Então encontramos sua mala, Senhor!”, e eu quase que podia ver o sorriso de comercial de pasta de dentes no rosto da atendente! Mas aí vem o “Alguém irá contatar o senhor para entregar a mala, passar bem!”, e eu já não me sinto mais tão aliviado assim.

Já se passaram dois dias e nada de me contatarem, talvez a mala esteja sendo transferida do setor de ‘achados e perdidos’ para o setor de ‘depois de achados, entregues pro cliente’. Pelo menos eu espero que eles já tenham criado esse setor e que o Caribe esteja agradável para um certo alguém não sair de lá tão cedo.

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