setembro 11, 2009

E o português?

Sete horas da manhã, toca o despertador, ele olha, xinga até a quinta geração do despertador, mas se lembra “É hoje! É hoje o dia que coloco meu burro na sombra!”, e então pula da cama como se não houvesse amanhã e começa a se preparar para sua entrevista de emprego. Melhor, para ‘A’ entrevista de emprego, aquela que promete ser a virada. Grande multinacional, salário perfeito, bônus melhor ainda, benefícios indescritíveis e lá vai ganância.

Uma hora depois, já estava arrumadinho, alimentado, e se sentia 100% psicologicamente preparado – afinal de contas, leu todas as dicas de ‘como se dar bem em entrevista de emprego, mesmo sendo um bosta’, todos os blogs sobre ‘o entrevistador de ontem, de hoje, e o milionário de amanhã’, não perdeu nenhuma edição do especial daquele site especializado em ‘as trinta e nove coisas em que todo o candidato a um emprego dos sonhos precisa ser mestre’ blá blá blá. Enfim, estava se sentindo o dono da empresa, podia se ver, em cinco anos, seis no máximo, com aquele Mustang amarelo, óculos Ray-Ban aviador, uma loiraça no banco do carona, um chevettão preto com quatro seguranças, e sendo entrevistado pela televisão.

Mais uma hora e estava ele entrando na recepção do prédio, e que prédio bonito, todo de vidro, 45 andares, câmeras de vigilância, seguranças, um sonho capitalista paulista. Cumprimentou a recepcionista com toda a educação que nunca demonstrou para as recepcionistas do prédio onde trabalha atualmente – um prédio meio feio, a outra metade horrível, portão de ferro fundido, onde um senhor (que a essa altura da vida já deveria estar jogando dominó no boteco com os amigos ) com um quepe preto e marrom faz as vezes de segurança – “Afinal de contas, hoje é dia de entrevista, e preciso ser um exemplo de cidadão educado, vai que estão esperando pelo relatório da recepção sobre ‘como se comportou o candidato’”, cinco minutos depois e está ele sentado no sofá à espera do chamado, mastiga o último dos seus Halls extra forte (o décimo, só para garantir um hálito natural de sauna úmida).


Passados agoniantes 15 minutos, ouve então a frase que mais aguardava “Senhor Jorge, o senhor Pedro o aguarda. Por aqui, por favor!”. E lá se vai o Jorge, só pensando nas aulas de golfe, degustação de vinho, single-maltes, final de semana em Angra, e todas aquelas coisas de gente chique e rica.


“Senhor Jorge, muito bom dia. Por favor sente-se!”


“Obrigado Pedro, licença”, respondeu, após pesar silenciosamente se soltava um informal ‘Pedrão’, ou um pomposo ‘Senhor Pedro’, na dúvida ficou com um simples ‘Pedro’ – afinal de contas 25 das dicas dos sites especializados diziam que era melhor ser informal e 24 eram mais adeptas da formalidade.


“O senhor sabe que nossa empresa faz muitos negócios com clientes estrangeiros, correto? Sendo assim, vamos começar essa entevista falando sobre suas habilidades no idioma inglês, por favor!”


“Claro, meu inglês é fluentissíssimo, cheguei até o nível 12 do Purple-and-Green!”


“Muito bem, passemos então ao próximo tópico. Suas habilidades na língua Portuguesa. O senhor pode, por favor, escrever nessa folha de papel aqui, uma redação sobre como o senhor aprendeu e desenvolveu seu inglês?!”, ao que lhe entregou uma folha de almaço. Não, não, perdão. Uma folha de sulfite, com o logo da empresa - afinal de contas, folha de almaço, Fritopan e Crush é coisa que ninguém mais conhece).


Nesse momento Jorge estava se sentindo traído, perdido, sem chão, a própria encarnação do ponto de interrogação. Afinal, nenhum dos sites, ou blogs, ou revistas especializados em entrevistas vencedoras havia sequer citado o risco(!) de um teste de português. Indignado bradou “Que absurdo é esse, é uma multinacional, o teste deveria ser de inglês!!!!”, mas bradou mentalmente, só para ele, pois ele não precisa de sites, blogs ou revistas especializados, para saber que não se grita com o entrevistador e potencial futuro chefe.


Conformado, afinal de contas a língua portuguesa é sua língua nativa – “o que pode dar errado?”, Jorge acompanha a assistente executiva (isso mesmo, secretária de multinacional é assistente executiva) à salinha ao lado, onde irá escrever as dolorosas linhas.


Meia hora depois, já com a boca parecendo lixa de tão seca - “Por que não deixei um, pelo menos, um Halls pra depois?” - estaca Jorge em frente a um portão de ferro fundido, de onde um tiozinho de quepe pergunta “Seo Jorge, o senhor não disse que estava doente? “.

5 comentários:

  1. Faaala SERPA:

    Muito bom seu blog (bom saber que inspirei você heheh - que pretensão, hein ?).

    Vá em frente e dê vazão, posi a prática nos direciona para a perfeição ... às vezes não, como no caso do Lula ... ou melho ... também no caso dele, pis se tornou (e continua se esforçando) para ser um perfeito IMBECIL HAHAHAH.

    Sorte.

    Quando estviver pr aqui, me avise e vamos nos encontrar.

    Gianizella (O Síndico)

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  2. Fala Serpa!
    Tudo bem?

    Fico feliz que tenha gostado!
    É incrível como hj não podemos chamar as coisas pelo nome delas. Vc acaba correndo o risco de ser preso! Nem favela mais se fala! Virou tudo comunidade!
    O seu texto aborda mto bem isso, parabéns!

    Continuemos em nossa luta e não nos entreguemos! rsrsrs

    Abrax
    Balu

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  3. Como tem pessoas da "alta" sociedade q são preconceituosas e babacas! Ainda bem q os meus semi-alfabetizados me ensinaram mto mais caráter do q para os donos desses comentários cretinos!

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  4. Salve Anônimo, muito obrigado pelo comentário sem sentido .... e pela falta de coragem de se identificar, só sei que és caiçara ...

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  5. Amei o seu texto... mt bom msm... mas estou aqui há pelo menos uns 10 minutos tentando entender o que essa topeira anonima escreveu aí em cima! aff
    bjssssssssssssss e agora hein será q a K... vai usar meu nome de novo? hauhauahauhauhauha bjsss

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