setembro 26, 2009

Vamos vomitar?

Sabadão de sol, é verão em São José do Rio Preto, o que significa algo em torno dos 42 graus Celsius e que se o gás acabar, é só levar a comida pra esquentar no asfalto. Um dos republicanos identifica uma panela de feijão que foi esquecida em cima do fogão desde ontem.

"Caraca, esquecemos de guardar o feijão na geladeira ontem!"
"Esquenta não, já deve ter estragado mesmo. Deixa que a Dona Onofra joga ele fora na segunda."

Não, não foi um erro de digitação, a nossa empregada da república era mesmo a Dona Onofra.  Devo esclarecer que ela não limpava a casa direito, não passava roupa direito, não fazia comida direito, não lavava a louça direito e, em um resumo simples, não fazia nenhuma outra coisa direito. Maaaas, ela fazia tudo isso para nós, os republicanos, e só isso já é mais do que motivo suficiente para mantermos a Dona Onofra como a empregada oficial da república.

Lapso temporal. Já é meio dia de segunda-feira ......

Chegamos em casa depois de quatro horas de aula (tá bom, quatro horas de bate papo e passeios pelo corredor da faculdade). Nós, cinco marmanjos, de 19 anos cada, com uma fome de marmanjos de 19 anos. O que significa que a primeira coisa que fazemos é nos acotovelar em frente às panelas e fazer aqueles pequenos pratos de pedreiro. E, apesar de você estar achando que era tudo uma zona e nenhuma etiqueta tinha vez nessa mesa, uma coisa todos nós sabíamos: era pra dividr a comida de forma civilizada - com exceção do Gordinho que roubava a panela do frango e escondia embaixo da cama (mas isso é assunto pra outro dia).

Bem, mais um lapso temporal, esse menorzinho. Já é o meio da refeição .....

Encontra-se lá o Jack, sentadão no sofá da sala, em frente à TV e com o prato no colo, rotacionando e analisando com extrema curiosidade uma garfada de comida. O que, por si só, não nos tiraria o foco de nossos pratos de comida, mas 99% do nosso tempo era gasto procurando um jeito de sacanear um ao outro, então não podíamos deixar essa passar barato.

"Qual foi Jack? Achou uma barata na comida?" pergunta um de nós. A pergunta pode parecer apenas uma pergunta de sacanagem entre moleques, mas se você morou naquele apartamento da Silva Jardim, você saberia que a chance de uma barata (ou um grupo delas) lá aparecer em qualquer lugar e a qualquer hora era maior do que a chance de um de nós estar pensando em sexo.

"Pra falar a verdade ..... sim, achei!"

"SE FODEU ....." exclamamos em uníssono, com todo aquele escárnio e prazer natural a um adultolescente que vê um semelhante se ferrando.

"É, eu acho que sim." confirma o Jack antes de complementar "Mas acho que nessa não estou sozinho. Já que essa pequena barata não me parece estar crua. Ou seja, ela passou por um processo de cozimento. O que me leva a crer que se vocês não acharam uma barata, ao menos o caldo dela vocês comeram."

"Não fode Jack. Só porque você se ferrou não fique inventando história."

"Não tô de sacanagem não. Olha aqui ..." se levanta o Jack e traz a delinquente cozida - ainda em sua cama de arroz - para o processo de vistoria.

"É sério mesmo, ela tá cozida." confirma o Du. "E pela textura, parece ter sido no feijão."

Em menos de um segundo estamos todos apinhados na cozinha, onde o Du mergulha a concha no feijão, faz aquela voltinha básica com a concha e a levanta aos olhos do povo republicano.

Palavras não foram necessárias para que todos nós, simultaneamente, entendêssemos o significado daqueles três cadáveres que boiavam ao sabor do caldo Maggi, alho, cebola, sal e um pouco d'água. Por algum milagre - daqueles que não agregam valor pra ninguém - o feijão da sexta-feira não estragou, apesar de ter ficado aberto todo o final de semana em uma cozinha com temperatura média de sauna. E três dias foi tempo mais do que suficiente para que nossas amigas artrópodas tomassem nosso feijão de assalto (tipo um " ... nós vamos invadir sua praia ..." do Ultraje!).

Olhamos um para o outro, todos com a mesma dúvida "Vamos vomitar?"

"Acho que não precisa.  Afinal de contas, já comemos mesmo"
"Concordo."
"Isso mesmo."
"Tá na hora de voltar pra facul."
"Bóra!"



post scriptum (ou para vocês mais ignorantes: 'p.s.')> Essa é uma história real, toda e qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais não é mera coincidência (o que é óbvio, posto que é uma história real). Isso aconteceu mesmo na república Km 0, no ano de 1993. Aproveito para mandar um beijo pros republicanos Chico, Du, Felício, Valter (Jack), Rodrigo (Gordinho), e pro agregado republicano o Rogério (Bancário).

6 comentários:

  1. Meu Deus Grillo,

    Vc teve coragem de contar essa também. Eu não sei se continuo lendo o restante ou se bloqueio o site para que ninguém mais tome conhecimento.

    Jack.

    P.S. Esse comentário não dá para assinar sem o codnome!

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  2. hahahaha

    Alexandre, fala a verdade, ninguém vomitou mesmo??

    Eu acabei de jantar e só de imaginar a cena deu vontade!!

    Abraços

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  3. Na real, ninguém vomitou ... éramos muito tolerantes com coisas nojentas nessa época (depois eu conto o que era nossa refeição preferida da madrugada pós-balada, o famoso "sarapatel de cachorro doido" ...

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  4. Agora estou aqui pensando se quero ou não quero saber o que é isto "sarapatel de cachorro doido".rss
    Mas acho que a curiosidade é maior, então vou esperar que você nos conte, vou cobrar.hehehe
    Só vou ser esperta e ler bem depois que tiver comido qualquer coisa, para não correr riscos.

    Feliz Natal, moço!!

    Abraços.

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  5. Poxa Grilitchio!!! ARGH!!!!...

    Historia nojenta, mas otima pra relembrar os bons e velhos tempos de republica! ;)
    Na nossa, qdo aparecia barata (e aparecia!), a Ka gritava! risos...

    bjao

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  6. Ô Grillo, não deixe um dia de contar sobre o X-nojão ...

    Abraços,

    RT

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