outubro 11, 2009

Questão de gosto ...

Eu gosto de asinha de frango, e você? É claro que gosta! Afinal de contas quem não gosta de asinha de frango, certo? Deixe-me contar então um causo que me aconteceu lá pelos idos de 1993, numa cidadezinha do interiorzão bão desse São Paulo sem porteira.....

O ano é 1993, o World Trade Center sofria um atentado a bomba, a Intel embarca os primeiros chips do Pentium, nasce a World Wide Web no CERN, acontece a chacina da Candelária, a Microsoft lança o Ruindows 3.11, morre Ferruccio Lamborghini ... mas tudo isso é irrelevante (fora que é tudo coisa do Tinhoso), o mais importante é que nesse ano eu entrava na vida adulta de facto! Entrava eu na faculdade e passava a morar fora de casa.

Com a graça do bom jeito brasileiro preguiçoso, e a má qualidade do ensino público médio, esse que vos escreve não teve a competência para passar na USP e acabou indo para a UNESP de São José do Rio Preto, carinhosamente conhecida por todos como IBILCE* (ou IBIRCE, BIRCE e afins). Depois de poucos meses passei a agradecer a todo instante por não ter passado na USP. Se lá eu tivesse passado, iria ter que estudar.



Fui para Rio Preto pois minha mãe tinha família lá, então eu poderia ter abrigo temporário até achar um lugar definitivo para morar. O problema é que sou o segundo ser humano mais procrastinador do mundo - o primeiro é aquele técnico da TV a cabo, que vai passar na sua casa 'entre segunda e sexta feiras, no horário comercial' - então fui ficando, fui ficando, e o meu tio foi me expulsando de casa.

Precisei então buscar morada, e agora com pressa. Por acaso, duas repúblicas de pessoas que eu conhecia estavam abrindo vagas. E, por sorte, uma delas era de uns veteranos que estavam fazendo matérias com os bichos (comigo). Como eles me conheciam, acabei sendo aceito pela república Km0**

Blá blá blá à parte, sou um cara de muita sorte, pois todos os membros da república eram pessoas de família, muito NERDs no quesito estudo, mas que nunca deixavam passar uma chance sequer de, como dizíamos, 'ir pra putaria' - antes dos protestos clamorosos de nossas esposas, 'putaria' no contexto Km0-érico era tomar uma cachaça, passar numas 27 baladas diferentes, conversar sobre física, tomar mais umas cachaças, visitar outras repúblicas, fazer desfile de carro na Alberto Andaló, ir sem dormir para a faculdade e outras atividades semelhantes. Ou seja, tudo o que pessoas jovens com tempo sobrando deveriam fazer!

Comecei minha vida de morador de república, ou republicano como dizíamos.

Me espantavam certos aspectos simples dessa vida, como por exemplo, a 'caixinha'.

A 'caixinha' era, de fato, uma caixa prateada de whisky (Chivas se não estou enganado pelos finados neurônios vítimas da cachaça barata dessa época da vida) na qual, semanalmente, cada um de nós depositava uma quantia pré-acordada para subsidiarmos a compra de comida.

O melhor de tudo, algo que muitos descrentes chamariam de 'comportamento de primeiro mundo', é que não havia fiscalização sobre o depósito. Confiávamos em todos, e isso sempre funcionou perfeitamente.

Outro aspecto da 'caixinha' era que cada um de nós tinha um dia da semana estipulado para comprar a mistura, ou em termos de 'chefs', a proteína do dia.

Bem, é chegado meu primeiro dia de ser o provedor da mistura. Sinto aquela emoção de fazer a minha contribuição de fato à República. Pegar o dinheiro da caixinha, ir até o açougue ou supermercado, fazer a escolha ... Tudo sozinho! Que progresso da minha vida de parasita de mãe!

Tudo ia bem até que me dei conta de que eu precisava mesmo escolher o que comprar, e isso deveria estar dentro de dois critérios básico: 1 - ser gostoso, 2 - ser em quantidade suficiente para todos nós, marmanjos, saciarmos nossa fome de campo de concentração.

Bem, posto que quantidade multiplicada por preço unitário = preço total, e sendo a quantidade praticamente pré-definida ('muito') e o preço total limitado ao valor diário da caixinha (o total da caixinha deveria dar para cinco dias de sobrevivência), a única variável real da equação era o preço unitário.

Tá bom! O que é barato o suficiente e gostoso o suficiente? ..... penso por uns cinco minutos e BAM!

Asas de frango .......

Asinhas de frango, que delícia!!!! Carne, pele, pele, pele e mais pele. Não tem coisa melhor que asa de frango! (a essa afirmação complementaria um amigo nosso "Ou eu não sei comer asa de frango, ou você não sabe fazer sexo!").

Além do mais, asinha de frango seria uma boa mudança para aqueles republicanos 'non-gourmets' que comiam bife de coxão-duro dia sim, outro também.

Comprei então minhas asinhas de frango, e serelepe levei-as de volta para a Dona Onofra cozinhar ..... alguns minutos depois ... asinhas de frango ao molho de tomate .... deliciosas ... mais alguns minutos e chegariam os outros republicanos.

Me sentia orgulhoso de meu feito. Uma refeição por mim provida. Uma refeição DELICIOSA por mim provida. Tudo por meus méritos. Em meu 'novo mundo' apenas coadjuvantes seriam os frangos que morreram, o dono da avícola, os republicanos que pagaram pela comida ou a Dona Onofra que a cozinhou.

Chegam os convidados para esse banquete dos deuses. Quase me arrisco a dizer que na mesa os néctares do paraíso os esperavam. Preferi não fazê-lo. Deixei ao acaso a surpresa ........

MINHA surpresa devo dizer. Pois aqueles cornos, fídumaéguas, hereges, sem paladar, dos outros republicanos só faltaram me bater.

"Grillo que porra é essa?"
"Você tá louco bicho?"
"Isso não é comida! Só tem pele e osso nessa panela." foi o mais amigável que ouvi, o resto fica para vossa imaginação.

E foi assim que algumas mudanças relevantes aconteceriam em minha vida.

Nunca mais me permitiram comprar a mistura (o que, sendo preguiçoso como sou, achei ótimo.)
Nos quatro anos seguintes eu não comi asinhas de frango em Rio Preto (ainda bem que meu pai tinha uma avícola e em todas as férias eu me entupia de asinhas de frango);
Desde então  não consigo aceitar que bife é comida de gente.

Gosto é ... como diz o ditado popular ... cada um tem o seu!
Mas pelo amor de Deus, asa de frango é deliciosamente indiscutível! Não é como lagosta, que não tem gosto de nada!!!!!!!!


* Apesar de parecer uma sacanagem, IBILCE significa Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas

** Km0, era explicado como significando que é de onde partimos. Mas muitos clamavam que nunca saíamos do lugar. Não importa, para que correr se o que vale não é o destino, mas sim o caminho!?!?

6 comentários:

  1. Genio !!!
    E o pior, é que é tudo verdade !!!

    Rodrigo

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  2. Olá Alexandre

    Estou adorando ler seus "causos"....descobri agora seu blog.
    Passarei a visitá-lo com frequencia.

    Grande abraço

    Christiano Timotijus

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  3. Salve Salve Timotijus Cerniauskas,

    que prazer! como me achaste nesse mar de merda que é a web?

    como vai a vida? Parou no décimo filho ou vai para o time de futebol?

    Abraços

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  4. Olá Alexandre.

    Como bom blogueiro estava aqui dando uma olhada na internet e encontrei o seu blog. Me parece um blog bacana de se ler, divertido, bem light, leve. Só preciso confessar que fiquei um pouco triste com seu comentário: "esse que vos escreve não teve a competência para passar na USP e acabou indo para a UNESP de São José do Rio Preto". Sou formado e mestrando desse mesmo lugar, e nem faz sentido perder tempo falando sobre a qualidade do IBILCE, que é inquestionável. Só acho que deveríamos perder esse senso de que a USP, que de fato é uma excelente universidade, é tudo o que existe de qualidade por aqui, e o resto é a periferia intelectual do país. Espero que no final das contas tenha descoberto que o IBILCE é, tanto quanto a USP, elite em tudo aquilo que faz.
    Espero que não se importe pelo comentário, pois não é nada pessoal. Vou dar mais uma olhada aqui no seu blog, e te convido para conhecer o meu também.

    Um abraço;

    Rodrigo Euzébio.

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  5. Olá Rodrigo, muito obrigado pelo comentário.

    Bem, quanto a eu amar o IBILCE não há dúvida. Talvez a 'piada' em relação à USP tenha ficado subliminar demais. O que eu quero dizer é que tinha esse 'sonho' de ir pra USP, mas descobri que o IBILCE foi a melhor coisa que me aconteceu.

    Cara, tirando as aulas de cálculo diferencial e integral, amei cada minuto dos meus quatro anos lá. O lugar, as pessoas, as festas, os professores, as 'semanas', os intercursos, tudo era ótimo.

    Abraços e volte sempre.

    Alexandre "Grillo" Serpsa
    (o Grillo é do tempo de BIRCE)

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  6. Oi, acabei de ler sua crônica e vou dar uma olhada no blog todo.É, vc é um autêntico ibilceano msm,to rachando de rir até agora, não nos conhecemos pessoalmente, somos de épocas diferentes, mas ainda bem que o Fb uniu todo mundo e salve o grupo do Ibilceanos, salve o Mark Zuckerberg, salve o próximo churras dos dinossauros ibilceanos........ ah e ainda bem que vc não foi pra USP...lá só tem chato hauahuahauhauahuahauhauha.. abraços
    PS:) tá dando erro os posts ou agora tá indo de vento em popa? hauahauauahuah

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