julho 17, 2010

O tempo é inexorável, como já dizia o poeta

Fato isolado número um

Estava eu revisando um material no escritório quando me deparo com um sacrilégio, a palavra idéia escrita sem acento. Como pode tal vilipendiação à língua ser aceita? Passo logo a caneta e comento que a palavra idéia deve ter acento agudo no 'e'.

Volta então o estagiário, um moleque de espinhas na cara, e me explica que, conforme as novas regras da língua portuguesa, a palavra idéia agora se escreve sem acento, ou seja 'ideia', da mesma forma que plateia, alcateia ....

Respondo a ele que 'na minha época' era com acento que se escreviam essas palavras.


Fato isolado número dois

Dirigindo, algo que odeio fazer, estava zapeando pelas estações de rádio e não conseguia achar nada que prestasse. Penso, penso e acabo voltando para a rádio rock, com seus sucessos dos anos 80 e 90. Até que enfim consigo achar música boa.

Chegando ao escritório comento com um dos meus colegas como a música 'em nossa época' era muito melhor que essa musiquinha descartável de hoje.

Fato isolado número três

Sentado numa mesa de almoço, com amigos do primeiro emprego, começamos a contar causos engraçados. Depois de uma hora de almoço um de nós percebe (ou, mais provavelmente, todos perceberam, mas ele foi o único a quebrar o pacto tácito de silêncio e trazer o assunto à pauta) que essas estórias são todas as mesmas do último almoço.


Fato isolado número quatro

Conversando com amigos do trabalho chegamos ao assunto "escola", long story short, fomos nós discutir a nova nomenclatura do ensino brasileiro (série vs. ano, primário vs. ensino básico, colegial vs. ensino médio etc). 


Agora a conexão lógica inexorável dos fatos isolados números um, dois e três (e quatro agora)

Desde que me entendo por gente lembro-me de como eu achava que meu pai era velho.

Não era somente porque ele, ao ser perguntado "Pai, como escreve essa palavra?", por diversas vezes responder "Bem, meu filho, no meu tempo se escrevia assim ....". Não me esqueço de como eu pensava dentro de minha cacholinha 'Caramba, meu pai deve ser velho demais, o português era até outro quando ele estudou'.


Também não era somente por ele viver implicando com as músicas que a gente gostava, como o bom e velho Guns, nunca deixando de enfatizar que no tempo dele é que as músicas eram boas de verdade. E eu, previsivelmente, pensava 'Velho retrógrado'.


Tampouco era somente por ele contar a mesma estória interessante que aconteceu com ele por 427 vezes. Ao que minha resposta sem voz era sempre 'Lá vai ele de novo, deve estar mesmo se encontrando demais com aquele alemão, o Alzheimer'.


Não era por ele ter estudado em um tempo em que se chamava o 'colegial' de 'científico'...

Era sim por conta das união dos quatro fatos que eu achava que ele era velho. E não era por pouco velho que eu o tinha, mas sim por deveras velho. E agora que eu me encontro com os mesmos três sintomas da anciã caduquice de velho? Só duas saídas vejo: a primeira é assumir que eu sempre estive certo e, além de meu pai, agora tem mais um velho no pedaço; a segunda é reconhecer que eu estava errado e somos os dois ainda crianças.

Tendo a preferir a segunda ..... mas acho que vou perguntar pro meu filho ...... ou não!




2 comentários:

  1. Fala Serpa! Ótimo post! Eu tenho os 3 sintomas (o da música já faz tempo) e penso assim sobre o assunto:
    Isso te irrita?
    Se irrita, você tá ficando mesmo velho, nem precisa perguntar pro seu filho.
    Se mesmo aceitando que os 3 sintomas são realidade, você leva numa boa, ainda tá bem mais jovem que muitos Y.
    É assim que eu percebo os 3.X que convivem comigo.
    Os primeiros se irritam e entregam os pontos. Vivem de procurar os mesmos sintomas nos outros para ficarem mais confortáveis.
    Os segundos não tão nem aí e seguem fazendo o que querem/gostam com quem querem/gostam! Cada vez menos com os primeiros!
    Abração!

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  2. Ahahahaha, ótimo texto!

    Ih... Concordo com os três fatos... Tô véia... Mas eu já sabia disso, infelizmente, desde que a palavra "balada" passou a me dar calafrios! Sem falar que Lady Gaga é um treco que não entendo, não entendo mesmo...

    Bjo e feliz aniversário!

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