julho 05, 2011

"De como me tornei 'El Rechazo'" ou "De como é ser deportado do México"


Disclaimer I: Baseado em fatos reais. Com exceção da maior parte dos diálogos, é claro!
Disclaimer II: Yo non hablo mierda ninguna de epaniól, entonces cuando en epaniól escribo és todo de sacanajem mismo.

Era um domingo como outro qualquer, ou seja, véspera de segunda e o ânimo já era em escala nanométrica, e eu me dirigia ao aeroporto internacional piada pronta 'Nuvem Baixa', ou 'Cumbica' para você que ignora a língua original dessa Terra de Vera Cruz.

A aventura começa com o motorista do táxi que dirigia como um Mister famoso da televisão, mas que eu não conseguia definir se era o Mr Bean ou o Mr Magoo. Na dúvida, e por estarem os cintos de segurança do banco de trás da viatura escondidos, no primeiro SINAL (vejam bem, senhores paulistanos, "farol" é uma peça do carro e não um sistema de SINALização de trânsito) me mudei para o banco da frente. Deu certo, cheguei vivo à lata de sardinha, digo: aeroporto. Ao menos acho que cheguei vivo, posto que, até onde sei, nunca morri e não saberia distinguir se estou vivo ou morto em um limbo que mimetiza a Terra.

Check-in feito, a atendente sorridente diz que é bom eu me dirigir diretamente ao terminal, pois a fila da PF estava um pouco grande. Aprendi mais uma: "pouco grande" em língua de atendente de companhia aérea significa quiloméééééétrica. Me lembrou um pouco das filas dos parques de Orlando, lá você vê uma longa fila, espera, a fila anda, você vai chegando até o próximo ponto cego, esperanças subindo .... mas quando chega ao ponto cego percebes que ainda tens mais um longo zigue-zague de filas. Outro ponto cego, e mais outro, e mais outro ... é mesmo como as filas dos parques de Orlando, mas sem a diversão ao final. All-in-all quase uma hora e meia de fila até passar do guichê da PF. E a FIFA e o COI ainda têm esperanças .....

O bom é que não tive que esperar para embarcar. Assentei-me na poltrona cinco golf, liguei o massageador das costas, tomei meu jugo de naranja, dormi ...... um belo e tranquilo vôo. Bastou sair de solo tupiniquim e tudo estava melhorando. Ou assim pensei.

Desço do avião, caminho até a Imigração, sou parado no meio do caminho pela revista "aleatória" (Aleatória, claaaaaaro! Minha cara de Saleem Habib ibn Muhammad não teve nada com a seleção, tenho certeza), mas nada grave, posto que a única droga que eu levava era o Windows que rodava no meu laptop, e essa já é tolerada.

Saio da revista "aleatória", chego ao balcão da Imigração e a moça já manda um belo "Bisto? Por favor!".
"Como assim visto?" - Pergunto eu, posto que brasileiro não precisa mais de visto para entrar no México .... long story short eu precisava estar com meu visto americano que estava no OUTRO passaporte que NÃO estava comigo (aquela moça que deveria ter checado a existência do meu visto no Brasil não o fez).

A última frase da moça da Imigração mexicana ao me deixar na terrível e famosa "salinha" foi: 'penso que vai a tener problemas. Hable com mi jefe!".

Se havia uma palavra para resumir a cena, essa palavra era: Fodiô!

Na salinha (10mx10m, cadeiras ao longo das paredes, um bebedouro com aqueles copinhos que são apenas um funil de papel, aqueles mesmos em que você bebia garapa no interior, uma TV passando o equivalente da Ana Maria Braga mexicana - essa foi a primeira fase da tortura, ninguém merece um "lorito Joselito") me chega uma oficial Federal e começa o diálogo:

Su nombre, por favor?
Alejandro, pero con un 'équis' e una 'e'.
Como? Alejandro non tiene 'équis' o 'e'.
Yo sé, és que mi nombre non és Alejandro, és Alexandre, compreendió? Alexandre és Alejandro con lo 'équis' y la 'e'.
Humpf! Fecha de nascimiento?
Beinteuno del siete del milenovecientossetientaecuatro.
Julio?
NO, ya te dice que mi nombre és Alejandro, pero com un 'équis' y una 'e'.
"Julio" en la fecha de nascimiento!?
Ah! Si! Julio.
Apellido?
Depiende, en la escuela era Cazuza, en la unibersidá era Grillito, mi madre me llama de Alex Fabiano. Cual preferisces?
APELLIDO és el nombre de família!
Ah! Si! da Cunha Serpa entonces.
Gracias....

E lá se foi a oficial com todas as informações anotadas em seu Tablet (um pedaço de papel já todo rabiscado para ser mais fiel à realidade). A propósito, já não fazia mais idéia de onde estava meu passaporte, pois o mesmo havia sido confiscado.

Cinco minutos depois, chega o Jefe, ou o que eu achei ser o Jefe.

Buenos dias Señor!
Buenos dias oficial!
Dedonde vienes, para donde vais? Donde trabaja? En que trabaja?
Biengo desde Brasil, me quedo em Mexico-DF, trabajo em Novartis que hace drogas ..... no, no, medicinas ... Soy Compliance Officer.
Muy bien, Compliance Officer, una persona que trabaja com reglas e leyes? E las deve conocer!?
rechazado - Grungy ink stamp, vector format very easy to...Si! - aqui você já deve perceber que a ficha caiu, não dava nem para pedir um jeitinho pro cara. Fodió mismo!
Entonces deves saber que vai a ser RECHAZADO?!....


RECHAZADO? Não poderia ser Deportado? Deportado é muito mais cult, e RECHAZADO me parece uma palavra muito dura, é como se chama um cachorro que é tocado da igreja. Me lembrei até daquele negócio da novela "O Clone", 'eu te repudio, eu te repudio, eu te repudio'. Não tinha palavrinha pior não?

Mas decidi não discutir filologia com o oficial, afinal de contas, eu sei exatamente quando se perde uma discussão com uma autoridade, exatamente no momento em que você a começa. E muito melhor 'rechazado' que 'recheado' por linguiça mexicana em uma cela suja em Ciudad Juarez por ter desacatado uma autoridade.

Assinei os papéis de RECHAZO e fui escoltado até uma sala de trânsito. Aqui percebi que foi bom ter sido educado com o Jefe de La Polícia Federal, pois ele podia ter me largado na "salinha" que nem banheiro tinha, mas não, ele deixou que eu ficasse na sala de trânsito, onde havia banheiro, água, televisão, e mais gente (pessoas não "rechazadas", apenas que estavam de passagem sem visto, eu era o único pária da sala).

Foi na sala de trânsito que começaram o processo de desumanização (o mesmo que as forças especiais usam para destruir o equilíbrio psicológico dos soldados. Ou você acha que "zero um" ou "zero dois" é só para ficar bonito no filme?) e eu me tornei "El Rechazo".

Me informaram que eu voltaria ao Brasil no vôo das 23:30, e isso era apenas 08:30. Ou seja, vinte e três menos oito, noves fora, 15 HORAS de espera. Sem problemas, tenho meu BlackBerry e meu Laptop para me ajudarem. Peguei o BlackBerry para ligá-lo ... oops ... acho que ele ligou sozinho no meio do vôo, já que estava ligado e com a bateria no vemelho. Sem problemas novamente, tenho o carregador ... oops ... só não tenho um adaptador para aqueles pinos pré-históricos das tomadas que haviam na sala. Sem problemas novamente, fiz uma chupeta da bateria do laptop (não tinha wi-fi mesmo) para a bateria do BlackBerry, o que me deu alguns momentos de contato com o mundo exterior.

Uma moça que me ficou de babá designada me disse que me trariam café-da-manhã e almoço, só não lembrou de me dizer que o café chegaria às 11:30 e o "almoço" às 18:00.

O café-da-manhã foi "normal", pão, ovo, doritos, feijão e café. E já haviam se passado três das quinze horas. Comecei a ficar meio de saco cheio, pois era eu e a TV falando de "eleições, enchentes, eleições, enchentes, eleições, enchentes, um produto milagroso para acabar com varizes, um produto milagroso para acabar com cistite, um outro para acabar com colite", ou seja, uma desgraça.

Quando achei que não pudesse ficar pior e que o tédio de ficar sozinho na sala era a parte mais chata, eis que chega uma delegação de dança do Peru. Vinte e três pessoas, vinte adolescentes, três velhas reclamentas e barulhentas. Como era bom o silêncio. Isso já era lá pelas 16:00 e comecei a supor que o almoço não chegaria, comi um pão que salvei do café-da-manhã com água.

Começou um jogo de futebol da copa sub-17, Alemanha e Inglaterra "go Deutschland", 3x2. Mas quando acabou o jogo, tive que ver quinze minutos de novela mexicana ... GI-ZU-IS! Começou então um outro jogo e chegou meu 'almoço', já eram 18:00.

O 'almoço' também era 'normal', um bowl de canja, que estava bem gostosa devo dizer, umas fajitas com frango, guacamole e uma Cueca-Cuela. Fiquei até feliz com o 'almoço'. Mas a felicidade durou pouco, posto que não havia colher para tomar a canja, a Cueca-Cuela ficou muito tempo encostada na sopa e esquentou, como também o fez a guacamole (WARNING:: não comam guacamole quente) e se isso não bastasse, as três velhas reclamentas começaram a bater boca com os oficiais da Protéccion Federal sobre quem, e quantos, poderiam sair para comprar comida ... virou um furdûncio (e tudo em epaniól gritado. Got the picture?) .... 19:00 ... apenas mais quatro horas e meia....

Decidi que já era hora de tomar banho. O que não fez a mínima diferença, posto que chuveiro não tinha ali. Passei um pano úmido no suvaco e no pescoço, troquei a camiseta e dei-me por satisfeito (melhor o banho de gato que ter que pegar o sabonete naquela prisão de Ciudad Juarez).

Assisit o México perder pro Chile na Copa América, depois assisti a um programa do tipo Raul Gil (se vocês acham o Raul Gil ruim ....) e chega a moça que iria me acompanhar até o avião.

Donde está EL RECHAZO?
Soy Yo!

E fui então a caminho do avião. Sem saber se iria voltar de classe executiva ou de pobre, mas pelo menos furei a fila e fui escoltado até dentro do avião, ainda sem sinal do meu passaporte.

O vôo foi tranquilo. Quando o piloto comunicou que estávamos em procedimentos de descida, uma das atendentes veio me entregar o meu passaporte. Só tenho a esperança de que ninguém que alí estava sabia que aquilo significava que eu era "El Rechazo" (eu não saberia) ...

E foi assim, sem torturas muito pesadas, que pude chegar em casa e tomar um banho depois de 42 horas (quem me conhece sabe que essa foi a pior tortura possível).

Pelo lado bom, no mínimo já tenho meu nome de guerra para o Gigantes Del Ringe de Honduras "El Rechazo".

ps.: Devo tudo isso a meu amigo Murphy de quem já falei aqui e aqui (que também trata de viagens azarentas)

6 comentários:

  1. Muito boa história... para vc ficar menos puto, no ano passado dois amigos mexicanos vieram me visitar e fizeram o famoso "bate e volta" pela falta de visto brasileiro ...
    Voltei do México DF neste vôo da Aeromexico das 23h30 no último dia 28. Quase que te faço companhia! Abs , Cesar

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  2. Christiano Timotijus6 de julho de 2011 07:36

    Caramba, Cazuza.....
    Passou por uma boa mesmo.....
    Grande abraço

    Christiano Timotijus

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  3. Caros, vi que alguns visitantes deixaram um comentário, mas por algum motivo o browser não "postou" o comentário.

    Se você é um deles, tente, por favor, comentar novamente.

    Abraços

    El Rechazo

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  4. Muito boa a historia, Grillito! Um dia te conto como eu fiquei presa no aeroporto da cidade do Kuwait, sem burca.
    Bjs!

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  5. "Murphy é meu pastor e nada me faltará." Nunca vou esquecer esta frase que você me ensinou em um momento que quase fui rechazada da empresa por mandar uma promoção de maquiagem para o chefe POR ENGANO!!!!
    Muitoooooo bom o seu relato!!!!

    Simone Lima

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