junho 11, 2013

Um Ciclo Que Se Fecha

Ele ficou lá. Sentado, com os olhos marejados e um olhar cansado. Como pedira a todos os outros presentes, restava agora apenas ele naquele campo verdejante. Essa era a última coisa que ele poderia fazer por ela. Esperar e ver o último grão de terra ser despejado em sua sepultura. Não havia nenhuma ilusão em sua mente, ele sabia não haver uma vida após a morte e que ela já não mais existia. Mas ele fazia aquilo para ele mesmo. Para sua própria paz ficou ele ali sentado por horas a fio. A única coisa que passava por sua mente eram as lembranças daqueles últimos dois meses.

Estavam eles no meio do oceano Pacífico, em seu veleiro, como por muitas vezes já o haviam feito. A tempestade se aproximava, mas a eles não preocupava, pois não seria sua primeira tempestade. Fizeram todos os arranjos necessários; prenderam todos os itens soltos; baixaram e amarraram todas as velas e fecharam todas as escotilhas. A tempestade chegou como chegam todas as tempestades. Vento, chuva, raios, trovões. Mas em um piscar de olhos o que era uma tempestade havia se transformado em um furacão e tudo em seu mundo começou a ser destruído. Sua única lembrança clara se refere a seu reconhecimento, e aceitação, de que aqueles seriam seus momentos finais caso não tomasse alguma ação imediata.  Ele tomou a decisão de que precisavam sair do veleiro se quisessem sobreviver. E assim o fizeram. Vestiram seus trajes de sobrevivência, carregaram o bote salva-vidas com os kits de primeiros socorros e de sobrevivência e conseguiram sair do barco antes que esse se partisse e se encaminhasse ao fundo do oceano. Ele nunca entendeu como conseguiram sobreviver a um furacão com ventos e ondas fortes o suficiente para rachar o casco do seu veleiro. Mas eles sobreviveram.

Eles não conseguiam se lembrar como foi que caíram e se afastaram de seu bote salva-vidas. Tampouco conseguiam precisar quantas horas havia ficado a deriva na água turbulenta. A eles parecia que havia se passado, ao menos, um dia inteiro. Acabaram por chegar a uma praia em uma pequena ilha que se erguia solitária no meio do vasto oceano. Para qualquer lado que se olhava nada podia ser visto no horizonte. Sabiam que estavam vivos graças a seus trajes de sobrevivência, que os havia protegido da hipotermia e do afogamento. Ele havia machucado seu ombro esquerdo, que doía demasiadamente, e ela tinha um joelho torcido.

Após três dias vasculhando a ilha, acabaram por perceber que tinham tido sorte, pois a ilha não era dos piores locais para se estar perdido. Havia água limpa e muitas frutas conhecidas. Também puderam encontrar uma caverna que fornecia um abrigo adequado da chuva e do vento. Porém, o que lhes causava preocupação era o tempo que demoraria para serem resgatados – se o fossem – pois não haviam tido tempo para enviar nenhum sinal de emergência antes de abandonarem o veleiro. O que os tranquilizava é saber que seu filho iniciaria uma busca no dia seguinte após não receber a comunicação diária que mantinha com eles. Essa certeza permitiu que, mesmo em uma situação difícil como aquela, pudessem se manter tranquilos e até desfrutarem um pouco do tempo que tinham sozinhos. Mas para não correrem riscos desnecessários, garantiram que haveria sinais fartos de sua presença naquela ilha preparando fogueiras e grandes sinais de S.O.S. nas areias da ilha.

Mas o destino não lhes foi o mais gentil. Em uma tarde, ao voltar do riacho de onde coletavam água fresca – e que não ficava a mais de cinco minutos de distância – a encontrou caída na areia. Ele correu o mais rapidamente que pôde em direção a ela e pôde perceber que ela estava sofrendo uma reação alérgica grave. Ela ainda conseguiu olhá-lo nos olhos, sorrir e apertar sua mão antes de desmaiar e, alguns minutos depois, deixar a vida se esvair de seu corpo. Ele não podia acreditar naquilo que se passou. Ela não tinha nenhuma alergia conhecida. E ele não conseguia deixar de pensar no fato de que se estivessem em seu barco, ou em sua casa, ela ainda estaria viva. Por treze horas ele ficou sentado com ela em seus braços. Por treze horas ele chorou. Por treze horas ele praguejou e amaldiçoou o mundo. Por treze horas ele sentiu toda a sua impotência. Por treze horas ele não conseguiu pensar em nada que não fosse o buraco em seu coração. Após treze horas ele se levantou e começou a cavar uma sepultura para sua companheira.

E o destino novamente o traiu. Ao se levantar ele pôde ver um bote se aproximar da costa e os três homens a bordo se aproximarem dele. Em algum momento os homens lhe explicaram que haviam lido sobre o desaparecimento de um casal em alto mar e ao avistarem as bandeiras laranjas que tremulavam naquela praia – os trajes de sobrevivência haviam sido convertidos em bandeiras laranja que foram distribuídas por toda a praia – decidiram verificar. Mas nada disso importava. Sua primeira reação ao ver aqueles homens não foi a reação de uma pessoa normal. Ele não acenou, ele não sorriu, ele não correu em direção a seus salvadores. A única coisa que ele pôde fazer foi retornar em direção ao corpo de sua amada, toma-lo em seus braços e caminhar lentamente em direção à linha d’água. Ele nunca conseguiu explicar o que sentiu naquele momento. Mas era um sentimento mais doloroso que aquele que ele havia sentido treze horas antes. Como poderia ser possível ela morrer apenas horas antes de serem resgatados? Após 58 dias em uma ilha isolada. Tudo aquilo tinha que ser apenas um pesadelo. Mas ele, infelizmente, sabia que tudo aquilo era realidade. Uma realidade dolorosa e triste.

Ele decidiu que já era hora de deixar o cemitério e voltar para sua casa. Não havia nenhuma razão para que ele ali ficasse. Ela ali não estava. Ela não estava em lugar nenhum. Ela não mais existia.

Ao chegar a sua casa ele já havia tomado a decisão. Ele não tinha dúvidas de que possuía razões mais do que suficientes para cometer o suicídio. Afinal, ele perdera dois amores em sua vida. Há vinte anos sua esposa morrera durante o parto e ele, por muitos anos, criou seu filho sozinho até encontrar aquela que seria seu novo amor. E agora esse novo amor também partira. Mas seu filho ainda precisava de sua presença. Seu filho ainda era seu filho, a única pessoa viva que ele amava. Então sua decisão foi de que iria esperar até o dia em que seu ciclo de ‘pai e filho’ se encerrasse. Ele esperaria, não importando quanta dor tivesse que suportar, até seu filho se tornar um pai.

Seis anos, dois meses e três dias se passaram e lá estava ele, segurando seu neto em seus braços. O menino olhava para seu rosto e sorria. Sorria um sorriso que era o mais belo sorriso que ele já havia visto. Não era apenas beleza estética que ele via naquele sorriso, ele via também a beleza da liberdade, pois ele não precisaria esperar nem mais um dia para acabar com uma vida de sofrimentos.

Ao chegar em sua casa, separou dezenas de seus antidepressivos e ansiolíticos, colocou-os ao lado de sua cama e começou a redigir a carta de suicídio para seu filho ....

“Meu filho, meu único amor, me desculpe.

Sei que não é uma atitude corajosa acabar com a própria vida, mas entenda que eu já sofri o bastante e por mais tempo do que eu gostaria. Perder os amores de minha vida, sendo impotente para ajudá-las enquanto elas morriam em meus braços é muito doloroso para eu suportar.
Por duas vezes eu lutei para me recuperar e já estou muito cansado de toda a depressão, dos pesadelos, das doses mais e mais altas de medicamentos e da dor em meu coração. Estou cansado. Apenas isso. Cansado.

Você sempre foi a única razão para eu continuar vivendo. E agora sinto que eu posso partir. Você agora tem seu próprio filho. Você é um pai e não precisa mais de mim. O ciclo se encerrou e agora posso descansar. Novamente, me desculpe.

Saiba que você é a pessoa que mais amei durante toda a minha vida. Você foi a razão para eu me manter vivo. Por você eu passaria por tudo isso novamente.

Nada nesse mundo me deu mais felicidade e prazer do que ser seu pai, e por isso parto com o sentimento de que minha vida valeu a pena mesmo com toda a dor que vivi.

A única coisa que tenho certeza após todos esses anos é que eu realmente te amo. Eu sempre te amei.
Adeus filho!”

Seu filho terminou de ler a carta sem perceber o rio de lágrimas que escorria por seu rosto. Tudo que ele pôde fazer foi voltar seu olhar para cima e perguntar, “Mas pai, eu não entendo. Você está aqui e me trouxe essa carta. Por que?”


“Eu te explico meu filho. Após escrevê-la e lê-la por incontáveis vezes, apenas uma certeza eu tive. A certeza de que se tudo o que eu havia escrito fosse verdade, eu realmente te amo. E se essa é a única certeza que tenho, então não há alternativa a não ser jogar todas aquelas pílulas no lixo e me certificar que estarei aqui para amá-lo a cada segundo da minha vida, até que chegue o dia em que ela acabe naturalmente.”