julho 31, 2010

Retrocesso tecnológico nominal

Vejo sempre discussões, artigos, livros e outras coisas mais que discutem como somos uma sociedade tecnológica. Não tenho dúvidas que estamos vivendo em uma sociedade tecnológica, pois estamos tecnologicamente cercados de tecnologias.

Uma das coisas que me faz ter certeza que estamos cercados por tecnologia, e que isso nos transforma, é a incapacidade de muuuuitas pessoas de fazerem simples contas matemáticas sem recorrer a uma calculadora. O que me deixa um pouco triste, principalmente quando vejo jovens que não conseguem calcular 50% de 18 sem uma HP12C.

Contudo, há algo que vai na contramão da evolução tecnológica e continua preso a um passado de trevas. Quase um retorno à idade média. Me assusta ver como podemos nos dizer modernos e progressistas quando a tecnologia é bloqueada pelos métodos antigos.

Tenho vários exemplos que ilustram essa minha opinião, mas vou me limitar a um dos mais escancarados que conheço. O cartório de registro civil.

Há poucos dias fui com um amigo de faculdade (fizemos ciências da computação no IBILCE, mas nos graduamos mesmo em engenharia de alimentos. Bem, pelo menos naquela parte que trata de cerveja e derivados, o que me lembra de um ditado alemão que diz, mais ou menos, "Cinco cervejas se igualam a uma refeição e você ainda nem começou a beber!").

Voltando à questão da tecnologia, estávamos nós dois lá na fila do registro civil (ou 'rezistro', dependendo da região do país de onde você é originário) quando, exatamente após o escrivão registrar o Valdisnei Silva (se você não sabe o motivo de alguém se chamar 'Valdisnei', procure na Disneylândia), somos chamadas àquela mesa moderníssima de cartório. Bem, falando a verdade a única coisa moderna que tinha na mesa era um computador, se bem que era um PC-AT 286!

Meu amigo então, depois das firulas básicas e, em resposta à pergunta 'qual o nome do registrando?', responde "Maria do F1 Fernandez", "com 'z'", complementa meu amigo.

"Como assim F1 meu senhor? Tá ficando maluco?"
"Tô não. Esse é o nome que quero!"
"Mas que coisa é essa de F1, é algo a ver com o Ayrton Senna? O senhor era fã dele?"
"Não, não. Nada disso. É que trabalho com computação e F1 é help, ou seja, 'socorro'. Assim, o nome da minha filhinha linda é Maria do Socorro Fernandez."
"Olhe aqui meu senhor, esses nomes vexatórios estão proibidos. Estou registrando aqui o Maria do Socorro por extenso. Passar bem!"

E ainda nos dizemos modernos e progressistas. Fascistas retrógrados isso sim.

julho 25, 2010

Como assim, não gosta? Todo mundo gosta!

A gente acaba crescendo com algumas verdades absolutas gravadas em nossas cabeças, conscientes, corações, chame como você quiser. O importante é que crescemos acreditando que certas coisas são imutáveis. Infelizmente, ou felizmente - dependendo da escola de psicologia a que você é adepto, pouco a pouco vamos desmascarando algumas dessas verdades absolutas.

Começamos pelas mais básicas, como o papai noel e o coelhinho da páscoa, que talvez também sejam as mais simples.

Passadas as verdades absolutas infantis, chegamos àquelas que são frutos da cultura (se é que pode se chamar estupidez de cultura), como:

- comer manga com leite fazer mal - essa, especificamente, sempre me deixou pensativo. Por que cargas d'água alguém acharia bom comer manga com leite?
- assoviar à noite chamar o Saci-pererê - bem, aqui é uma 'dupla', pois é para acreditar nessa besteira, tem-se que acreditar, primeiramente, na existência de Sacis. O que me parece um absurdo para uma pessoa que já não mais acredita no Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa, mas tem idiota pra tudo;
- deixar o chinelo de cabeça para baixo matar a mãe do dono do chinelo de cabeça para baixo - no comments;
- tomar banho após as refeições dar 'congestã' - essa me foi de muita serventia na minha adolescência rebelde. Como eu era um adolescente do tipo "cagão" (vamos lembrar que era uma época sem a lei da palmada pedagógica, e minha mãe já havia descoberto formas muito mais eficientes de me 'pedagogicar' do que utilizando as palmas das mãos) eu usava o banho depois das refeições para atormentar meus pais. Era muito, mas muito mesmo, irritante pra eles eu sair direto da mesa de jantar para o banho;

Bem, não preciso me alongar muito na lista, pois tenho certeza de que você já lembrou de mais umas duzentas e trinta e sete besteiras do tipo que ilustrei acima. Mas até aí nada demais, acho que todos nós, seres humanos racionais, acabamos deixando essas crendices de lado e voltando à lucidez (por favor, você que realmente acredita no criacionismo, inclua-se fora disso).

O problema é que mesmo depois de velho venho me deparando com a destruição sistemática de minhas crenças. Ainda encontro por aí pessoas que não gostam de carros com câmbio automático, outras que não gostam de ar-condicionado, algumas que não comem comida japonesa. Ou umas das que acho mais difíceis, pessoas que não comem carne vermelha. Vai entender ......

Mas não é sobre essas pequenas coisas que quero falar. Quero mesmo é comentar sobre uma descoberta recente que me chocou. Algo que nunca achei possível ser possível. 

Descobri que há pessoas nesse mundo capazes de não gostar de YAKULT. 

COMO? 
ABSURDO!
VOCÊ É LOUCO?!?!?!?!?!
TODO MUNDO GOSTA DE YAKULT!!!!!!!

Ou assim eu pensava até essa semana ...... Vai ver amanhã eu descubro também que há pessoas que acreditam na vida após a morte. Afinal de contas, depois de descobrir que há pessoas perturbadas o suficiente para não gostarem de Yakult, nada mais me espantaria .....


DISCLAIMER:: Não, eu não ganhei nada da Dona Yakulta, a mãe do Yakult, para fazer esse post (adoraria ter ganho). O fato é que eu realmente gosto de Yakult. Até uso técnicas para parecer que tem mais volume no potinho, como despejá-lo em um copo e colocar gelo (valeu Canado!).


julho 17, 2010

O tempo é inexorável, como já dizia o poeta

Fato isolado número um

Estava eu revisando um material no escritório quando me deparo com um sacrilégio, a palavra idéia escrita sem acento. Como pode tal vilipendiação à língua ser aceita? Passo logo a caneta e comento que a palavra idéia deve ter acento agudo no 'e'.

Volta então o estagiário, um moleque de espinhas na cara, e me explica que, conforme as novas regras da língua portuguesa, a palavra idéia agora se escreve sem acento, ou seja 'ideia', da mesma forma que plateia, alcateia ....

Respondo a ele que 'na minha época' era com acento que se escreviam essas palavras.


Fato isolado número dois

Dirigindo, algo que odeio fazer, estava zapeando pelas estações de rádio e não conseguia achar nada que prestasse. Penso, penso e acabo voltando para a rádio rock, com seus sucessos dos anos 80 e 90. Até que enfim consigo achar música boa.

Chegando ao escritório comento com um dos meus colegas como a música 'em nossa época' era muito melhor que essa musiquinha descartável de hoje.

Fato isolado número três

Sentado numa mesa de almoço, com amigos do primeiro emprego, começamos a contar causos engraçados. Depois de uma hora de almoço um de nós percebe (ou, mais provavelmente, todos perceberam, mas ele foi o único a quebrar o pacto tácito de silêncio e trazer o assunto à pauta) que essas estórias são todas as mesmas do último almoço.


Fato isolado número quatro

Conversando com amigos do trabalho chegamos ao assunto "escola", long story short, fomos nós discutir a nova nomenclatura do ensino brasileiro (série vs. ano, primário vs. ensino básico, colegial vs. ensino médio etc). 


Agora a conexão lógica inexorável dos fatos isolados números um, dois e três (e quatro agora)

Desde que me entendo por gente lembro-me de como eu achava que meu pai era velho.

Não era somente porque ele, ao ser perguntado "Pai, como escreve essa palavra?", por diversas vezes responder "Bem, meu filho, no meu tempo se escrevia assim ....". Não me esqueço de como eu pensava dentro de minha cacholinha 'Caramba, meu pai deve ser velho demais, o português era até outro quando ele estudou'.


Também não era somente por ele viver implicando com as músicas que a gente gostava, como o bom e velho Guns, nunca deixando de enfatizar que no tempo dele é que as músicas eram boas de verdade. E eu, previsivelmente, pensava 'Velho retrógrado'.


Tampouco era somente por ele contar a mesma estória interessante que aconteceu com ele por 427 vezes. Ao que minha resposta sem voz era sempre 'Lá vai ele de novo, deve estar mesmo se encontrando demais com aquele alemão, o Alzheimer'.


Não era por ele ter estudado em um tempo em que se chamava o 'colegial' de 'científico'...

Era sim por conta das união dos quatro fatos que eu achava que ele era velho. E não era por pouco velho que eu o tinha, mas sim por deveras velho. E agora que eu me encontro com os mesmos três sintomas da anciã caduquice de velho? Só duas saídas vejo: a primeira é assumir que eu sempre estive certo e, além de meu pai, agora tem mais um velho no pedaço; a segunda é reconhecer que eu estava errado e somos os dois ainda crianças.

Tendo a preferir a segunda ..... mas acho que vou perguntar pro meu filho ...... ou não!